Conto - Semolina Pilchard, por Luiz Alvez
- Alex Fraga

- há 2 horas
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Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o escritor e poeta de Campo Grande (MS), Luiz Alvez, com "Semolina Pilchard".
SEMOLINA PILCHARD
Ela estava diferente, quase irreconhecível, toda coberta de flores e uma nuvem quase
invisível de pó de pólen a enfeitar o rosto morto. O padre acenou com a testa e eu encostei minhas mãos nas dela, fechadas em conchas. Frio intenso. O padre foi ideia minha, me perdoe Lucy, eu sei que você nunca acreditou em nada do que eles falam, mas eu, bem, eu estou ficando velho demais para descrer de qualquer coisa. De longe partiu aquela nossa canção, entrou na minha cabeça sem ao menos pedir licença, como se fosse um tratado, e o gosto dos nossos momentos bons me abraçou brevemente. O violino chora aquele som de sirene e eu engulo o soluço. Porque estou falando num distante plural se sempre fomos singulares? Um frescor banhou meu rosto ao ouvir a sua voz de antes, “vamos tomar” e embora o receio me dominasse, peguei de seus dedos o comprimido e resolvi experimentar, enfiei-o na goela com as mãos trêmulas e me juntei ao seu corpo.
E como agora, a canção nos alcançou como um leopardo apanha o porco, sem chances para escapes. A garra, num só tapa, dilacerou nossas gargantas. No instante seguinte, o céu já era outro, flutuamos num mundo novo que se abriu diante dos nossos olhos, atentos ao sorriso da borboleta azul e ao vôo desengonçado do elefante rosa. Ah, você sorriu de um jeito tão gostoso... Por que logo eu sobrevivi? Uma pergunta antiga me assola ao tocar sua testa gelada; podemos mesmo viver sem ter um ao outro? O dia está claro, mas sinto o prenúncio da noite escura e vazia, repleta de solidão. A madrugada insondável que tanto temíamos, ei-la , bem perto de nós, de braços abertos e sorriso escaldante, caldo de baba gosmenta a escorrer pela bocarra, sedenta de nós. Eu ainda respiro e você já não pode enxergar. Seria muito mais simples se pudéssemos trocar de lugar - sempre lidou melhor do que eu com perdas e solidão - ou simplesmente se eu pudesse fechar meus olhos e me deitar ao seu lado, querida sacerdotisa pornográfica. Nossa música surge novamente na minha mente, é aquele acorde de quatro violoncelos, um clarinete , completados pelo coro de pássaros pretos.
Eu choro, eu choro. Lucy, será que você está indo para o céu agora? Ou é o abismo, feito aquela estúpida terça-feira sangrenta? Você consegue enxergar um belo jardim inglês no qual se espalham as flores da papoula?
O sino, o miserável sino me desperta. Estou de volta tentando tocar o silêncio. Resta um
pedaço de pão e o creme amarelo no pote e poderemos comê-lo um dia, sentados num
monte de cereal. Aquele comprimido não nos fez nenhum bem, mas foi tão delicioso sonhar de olhos abertos. A euforia efêmera de ilusões em forma de bichos voadores e insetos falantes fizeram parte da nossa essência por um longo tempo. Éramos nós, Lucy, o homem-ovo e a morsa.
Meu corpo treme, o seu está gelado. O poeta escreveu a nossa canção e depois se
transformou numa formiga perdida em meio ao colossal formigueiro, distante de tudo,
imaginando a inexistência do céu e do inferno, tomado pelas infindáveis imagens de
sonhos refletidas nos óculos redondos. Aqueles óculos, ninguém poderia supor, guardavam lágrimas nas lentes, anunciando o tiro cruel e traiçoeiro que calaria o poeta tempos depois. E nós choramos, choramos tanto...Eu vi os óculos sangrando enquanto subíamos na torre Eifell chutando o traseiro magro de Allan Poe, ao som alucinante do bando careca de Hare Krishna lá embaixo, dançarinos cegos, embalados pela alegria de sempre, eu, o homem ovo, você a louca da colina, a morsa.
Tudo é culpa do poeta, foi ele que deu vida à sirene e nos fez enxergar elefantes voadores. Eu sinto tanto a falta dele.Já faz um bom tempo que você me disse que era hora de morrer e eu respondi num enfezado pedido de silêncio, no rosto a definição exata de quem não queria ouvir bobagens. Como sempre, você estava certa. Detrás da cortina do teatro, o bobo da corte sorri para nós, eles venceram, restou o ar que respiro, um ar solitário, sem a sua necessária presença.
Eles não sabem, o frio de agora é insignificante diante do tempo no qual tivemos asas no lugar das pernas. Naquele luminoso momento, fomos nós os vencedores. Eles nos
caçaram tocando sirenes e nos escondemos dentro de nós mesmos, num lugar secreto que não tinha chaves nem senhas, apenas uma janela escondida no final do arco-íris e que só aparecia depois da chuva.
Nunca desconfiaram que o brilho no céu esconde o diamante. Não tem muita gente aqui, Lucy, há um resto de sombra de pessoas e uma luz na entrada e é por lá que vou tentar caminhar.
Alan Poe ainda vive dentro de mim, resiste na força do olhar que enxerga aquilo que
quase ninguém consegue ver. E nós, num breve instante, vivemos, tocamos, enxergamos o mesmo mundo dele e do poeta.
Um sorriso em meio às lágrimas e já não tenho certeza se eles venceram. Alan Poe aponta o poeta, encostado ao lado da cruz, e ele me diz num tom solene que o
guru é o cu do mundo e devo ligar um foda-se para a maldita sirene. Mas eu gosto tanto
de ouvi-la...
Volte Poeta, não desapareça Poe, não me deixem aqui sozinho, reclamo de olhos
arregalados. Mas eles não respondem, se afastam de mãos dadas, envoltos num riso
enigmático, brevemente debochado. Pensei num aceno de despedida, mas as minhas mãos estavam grudadas no frio das suas mãos, Lucy.
Ah, minha querida, quem foi que fechou os seus olhos?
Os aviões cruzam os céus, mas só enxergamos o barulho do motor e ouvimos a fumaça.
Eles são cruéis, estão prontos para a humilhação final, trocar a música, arrancar a sirene, mudar o ritmo da bateria colossal e colocar no lugar um som de orquestras, Beethoven, Mozart, não, não é possível que queiram apagar até mesmo a nossa canção.
Aflito, sigo esperando que a carruagem venha nos buscar.Estou chorando, estou chorando por dentro.
Guardei no bolso do paletó a rosa vermelha que trouxe para colocar no seu rosto no
derradeiro momento da despedida. Que coisa tola são essas de despedidas. Eu fico, mas vou junto contigo, espalhado no seu corpo, misturado ao pólen das flores sem vidas, feito as cinzas do cachorro morto.
- Podemos fechar? – perguntou o homem de uniforme ao lado do padre. Arranquei dos
olhos, com as costas da mão, a última gota de lágrima. Água morna e salgada, eu vivo,
até não sem quando. Guardarei comigo o botão de rosa que levei para lhe dar, mas depois de ficar frente a frente contigo e o frio das suas mãos percorrer todo o meu corpo, a rosa não tinha mais nenhum sentido.- Sim, tudo bem – respondi e me virei, passos largos rumo à saída para não escutar a batida seca da tampa se fechando.
Aquele caminhar para longe, será para mim como cair no mesmo buraco de Alice.
Um suspirar comprido antes, a certeza que levarei você comigo no pensamento; estaremos juntos para sempre, no mesmo caminhar torto dos sáurios. Estou chorando, estou chorando. Se puder, um dia me conte Lucy, se existe mesmo algum diamante no céu





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