Conto - Reminiscências de uma vergonha, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- 13 de set. de 2025
- 3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com Reminiscências de uma vergonha
Reminiscências de uma vergonha
O pingo de vela caiu bem em cima de meu pé direito. As sandálias Havaianas, número 28, com tiras largas e sobrando no tamanho, não me protegeram de ser queimado pela cera quente. Doeu o suficiente para sentir vontade de chorar, só me faltou coragem para isso. Olhei em volta e para cima e os rostos dos nove ou dez desconhecidos me intimidaram.
Nenhum deles olhava para mim, melhor assim. Na sala, de pessoa conhecida, somente minha mãe. Para os outros adultos eu era apenas o filho da vizinha. Do choro só restou a vontade insatisfeita. Também não devia ser algo tão importante. O calor da pele já esfriara. Por essa época, eu não sabia nada sobre esse tipo de queimadura, que embora pareça superficial, se fica presa, não sara mais. Depois, em casa, poderia contar para minha mãe o que aconteceu. No íntimo, sabia que nunca lhe contaria, assim como foi com tantas outras coisas. Fiquei sem o choro e sem ninguém saber o que houve. Perdi a oportunidade, emudeci, guardei comigo.
A vela grande que me machucou tinha um dono. Pertencia ao pasteleiro, o homem deitado no caixão. Vizinho de fundos. Lembrei-me do cheiro de pastel. Ele os vendia numa cesta de vime, parecida com a do Zé Colméia, o urso do desenho animado. Um pano de prato branco a mantinha sempre coberta e dela saia um cheiro inesquecível. As casquinhas do pastel crocante caiam na roupa a cada mordida. Acho que ele só fazia pastel de carne moída.
Que dificuldade ficar espremido ali embaixo entre o caixão e as pernas de minha mãe. A sala pequena, da casa de madeira, aglomerava a vizinhança apertada em torno do defunto. Encolhi-me o mais que pude, e esperava, contraído, por um segundo pingo de cera quente, que a qualquer momento poderia cair no meu pé. Melhor não chorar e não chamar a atenção. Depois que se experimenta a dor, fica difícil esquecê-la e dá medo de voltar a senti-la.
Olhei novamente para cima e para os homens em volta do caixão. Tão sérios, de cara fechada, falando baixo, tentando aparentar respeito e solidariedade à familia do pasteleiro. A maioria velhos, todos vestidos com camisas de mangas longas, deixando à mostra, bem na altura de meus olhos, seus pulsos com mãos peludas. Lá de baixo onde estava, não conseguia ver direito, mas me pareceu que de alguns deles também saiam tufos de pelos das narinas e orelhas.
Lembrei-me do Zé Ernesto, o menino morava na esquina subindo a rua de casa. Zé era mais velho, já tinha uns 7 anos. Um dia ele me confessou que fazia xixi na cama à noite. Outra vez o Zé contou ter ganhado chocolate de um parente de sua mãe. Eu nunca tinha experimentado chocolate, perguntei se ele havia gostado e como era o gosto. Fiquei sem resposta, apenas me disse que depois daquele dia, lhe enjoava pensar em chocolate.
— Você sabia que adultos pelados são cheios de pelos na barriga e nas virilhas?
Não sei porque ele me contava aquelas coisas. Não contou para nenhuma outra pessoa. Foi só uma vez e nunca mais comeu chocolate. Depois disso, ele quase sempre acordava à noite, chorando e todo molhado. Não conseguia livrar-se daquilo.





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