Conto - Quem acredita em Vampiro ?, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- 1 de nov.
- 2 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com
Quem acredita em vampiro?
Daltão me contou uma história de quando ele trabalhava na repartição. Mulher casada e homem casado. Ele com dois filhos e ela com três, todos pequenos. Mulher observadora, a dele. Marido ciumento, o dela.
— Bom dia, boa tarde. Passam-se os dias e as semanas.
— Sim, claro, concordo com você, ela também não me entende. Ah, se ele pensasse assim como você! Tudo seria diferente!
Tanta incompreensão e quanta compreensão ao mesmo tempo. Os dois colegas de trabalho falavam a mesma língua e de fácil entendimento para expectadores atentos. A química da sedução é literalmente foda. Aproxima coisas que juntas podem ser explosivas.
Já estava dando na vista, intensas emoções numa sala cheia de pessoas e onde quase nunca acontecia nada de interessante. Mas quem se importa, em um ótimo ambiente de trabalho os colegas faziam vista grossa. Não tinham nada a ver com a tempestade se formando no horizonte. Eles apenas observavam as nuvens escuras e o vento as trazendo cada vez para mais perto.
Quem foi o infeliz que inventou as confraternizações de final de ano entre colegas de trabalho? Fora do ambiente controlado, a família toda participando, depois de umas biritas, sorrisos indisfarçáveis e a língua mais solta: pólvora pura.
Daltão acha que foram apenas insinuações. Provocação platônica e nada mais. Duvido que ele ache isso. Vampiro velho, não dá para saber o que vai na cabeça do Daltão. E afinal, quem acredita em vampiro?
— Será que é só isso mesmo Daltão?
Eu aqui de ouvinte curioso posso indagar e duvidar se foi ou não platônico. Mas, para o marido ciumento e a esposa atenta, a verdade se escancarou diante deles. A mesa com mais garrafas de cervejas vazias que o recomendável, os pratos ainda sujos com restos de comida, só faltava a sobremesa. Para quatro pessoas não houve sobremesa e a
indigestão do almoço festivo foi experimentada em casa, no recôndito de quatro paredes.
Duas semanas de férias foram suficientes apenas para o roxo virar um amarelo palha nas bochechas da colega de trabalho. Finais de ano são datas emblemáticas, boas para se tomar decisões a muito adiadas. O colega resolveu mudar-se com a mulher e os filhos para o litoral. O ar marinho faria bem para a asma de seu caçula. E a cidade grande estava cada vez mais insegura e perigosa para se viver com a família.
Nota do autor:
Este texto eu escrevi pensando em Dalton Trevisan e o concluí em 30 de novembro de 2024, poucos dias antes de sua morte. Coincidências não existem e o Vampiro de Curitiba, mesmo não sendo membro da Academia Brasileira de Letras, é imortal.
Dalton Trevisan: 14/06/1925 – 09/12/2024.





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