Conto - Os demônios estão chegando, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- 25 de jul.
- 3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "Os demônios estão chegando".
Os demônios estão chegando
O demônio chegou a Tormentes em um final de tarde de inverno. A cerração desceu a serra, acompanhando-o. A névoa espessa cobria todo o caminho. A visibilidade não ia além de cinco passos. Antes de chegar à cidade, fez uma parada em Porto de Baixo. Na hospedaria à beira da estrada, alguns moradores se depararam, pela primeira vez, cara a cara com a face do mal. Era uma figura alta e esguia, a tez de cor indefinida dava-lhe o aspecto de usar uma máscara de cera. Contudo, talvez o que mais amedrontasse fossem os seus olhos. Mais do que brilho, possuíam um fogo que o povo logo aprenderia a reconhecer como sinal de sua fúria.
No primeiro encontro, quase não falou. Nos anos que se seguiram à sua chegada, porém, foi possível reconhecer outra de suas características marcantes: falava para dentro, grunhindo. Uns achavam sua voz idêntica ao grunhido de um porco; outros supunham que devia ser assim que o Cão falaria se estivesse disfarçado de gente. Depois da curta parada, montou em sua mula e retomou a jornada rumo a Tormentes. Ao atingir a Rua Beira-Rio, a principal da cidade, o cavaleiro vestido de negro seguiu em trote lento, indiferente aos olhares dos poucos curiosos. Ao final da rua, subiu o pequeno morro e chegou ao seu destino final: a igreja.
O Cão chegara com uma missão específica: construir a nova igreja. Sacerdote de carreira, mestre de obras por necessidade e doutrinador por vocação. Em cinco anos, a igreja de alvenaria estava de pé e pronta para receber os fiéis. A antiga igrejinha de paredes de madeira e piso de terra batida já não existia. Também ficou no passado o tempo em que as ratazanas podiam frequentar a igreja e viver na Rua Beira-Rio. Como se fosse o flautista de Hamelin, o Padre Cão atraía os seres indesejados para a periferia da cidade. Em sua maioria, pobres, mulheres sem marido, prostitutas, doentes mentais, deficientes físicos e todo tipo de indesejável. Como fazia o encantamento? Com novenas domiciliares. O Padre Cão visitava a casa de suas vítimas, acompanhado por dois homenzarrões. A dupla de auxiliares, conhecida como os diablitos do Cão, exercia as funções de sacristãos, torturadores e guarda-costas. O Cão preferia doutrinar meninos novos; as mulheres ficavam a cargo dos diablitos. Quanto aos mais velhos, a prioridade era submetê-los apenas ao martírio físico como forma de expiação dos pecados. Uma novena bem rezada na casa da família escolhida era suficiente para afugentar qualquer indesejável. Em geral, antes da segunda ou da terceira noite, os torturados desapareciam de casa. Houve até casos bem-sucedidos em que a ratazana, ao saber que seria visitada pelo Padre Cão, sumiu antes mesmo de receber a doutrinação.
Os sobreviventes das ratazanas doutrinadas eram obrigados a seguir suas vidas em outros lugares. Alguns subiam a serra para escapar dos demônios. Porém, a maioria ia ao purgatório que, em Tormentes, situava-se a duas léguas da igreja, no Poço das Almas. Segundo o Padre Cão, essa seria a distância ideal para afastar o mal da cidade. E como as ratazanas expulsas do paraíso ainda estavam em processo de redenção de seus pecados, permitia-lhes que voltassem à cidade para pagar um pouco de suas dívidas espirituais. Expiavam suas faltas, trabalhando durante o dia para os Donos da cidade, moradores da Beira-Rio. As atividades mais vis estavam destinadas às ratazanas. Elas limpavam a sujeira que os Donos da cidade faziam. Também executavam qualquer outro serviço que fosse menos digno ou inapropriado para as pessoas de bem de Tormentes. Mas, à noite, o fluxo se invertia, e os poderosos iam ao ninho das ratazanas. Os Donos da cidade frequentavam o purgatório em busca de conhecimento. Precisavam compreender o inimigo para melhor combatê-lo. A proximidade com os pecaminosos lhes trazia a consciência da necessidade das orações dominicais para que não tivessem a alma perdida como a deles. As visitas furtivas às casas de mulheres solteiras ou os encontros mais íntimos com garotos disponíveis faziam parte do cotidiano dos Donos da cidade.
Passaram-se os anos. O Padre Cão envelheceu. Tornou-se meio surdo e um pouco cego, distinguindo apenas vultos. Sua cabeça já não era a mesma. Parou de rezar missas e de realizar as malditas novenas domiciliares. Enclausurado em seu quarto, passava o dia inteiro sozinho. Muitas vezes, quem passasse perto da casa paroquial podia escutar o grunhido choroso do Padre Cão. Ele poderia estar tendo alucinações próprias da senilidade; porém, o mais provável é que estivesse prestando contas a seus chefes satânicos. Em sua mente voltava sempre a mesma lembrança: a novena em que tentou doutrinar Gertrudes e a família. Foi a única vez em que experimentou uma amarga derrota e terminou vencido pela feiticeira.
Gertrudes o comeu vivo.





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