Conto - O velório do palhaço, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga
- 21 de jun.
- 3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "O velório do palhaço".
O VELÓRIO DO PALHAÇO
A lata de tinta vermelha amassada e com a tampa lacrada permaneceu esquecida no chão atrás da lona. O palhaço pintor não pode usá-la e a placa continuou com as letras vermelhas, algumas desbotadas, outras apagadas, por mais algum tempo, mas mesmo assim, naquela noite ela teve alguma utilidade.
A contorcionista e engolidora de fogo fez sua apresentação com os olhos úmidos e vermelhos. Talvez disfarçada pela maquiagem ou por desinteresse do público, os sete ou oito espectadores não perceberam tal detalhe na face da artista. Eles também não reconheceram na fraca e vacilante atuação do aprendiz de palhaço algo que lhe oprimia. A reduzida plateia sentiu falta apenas dos doces e da pipoca. O menino pipoqueiro, filho da contorcionista com o palhaço e irmão do palhaço aprendiz, foi obrigado a se manter em vigília no lado de trás da lona.
Circo familiar, de lona puída e salpicada de furos. As minguadas bilheterias mal davam para a família comer. As dívidas determinavam que os reparos ficassem para depois. Há tempos a placa na entrada precisava de uma pintura. Houve um dia em que nela se podia ler em letras de cor vermelho vivo: “CIRCO O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA”.
O desbotado da placa, indicador de sua decadência, incomodava o palhaço dono do circo. Decidido a reduzir o incomodo, ele pegou meia dúzia de ingressos e foi à uma loja de tintas. Escambos desse tipo costumavam dar certo em cidadezinhas do interior. Com a troca ele conseguiu uma lata de tinta vermelha e garantiu ao menos seis espectadores para o espetáculo da noite. Melhor ainda, o palhaço descobriu na conversa que o dono da loja era pai de quatro filhos. Crianças adoram pipoca e algodão doce. Elas fazem os pais gastarem mais em guloseimas que com os próprios ingressos.
Sujeito profissional, no picadeiro o palhaço atuava concentrado e com todos os seus atos planejados e ensaiados. Contudo, fora do trabalho ele se permitia viver menos tenso. Satisfeito com a lata de tinta vermelha, apressou o passo para voltar ao circo, ele queria a placa renovada para o espetáculo da noite.
Cidade pequena e com pouco trânsito. Vez por outra passa um carro ou um caminhão. O palhaço não se deu ao trabalho de olhar para os lados antes de tentar atravessar a rua. Não houve necessidade de levá-lo ao hospital. O corpo ferido e a lata de tinta amassada foram largados no circo.
Como medida imediata, a família mudou de lugar a placa com “CIRCO O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA”. Ela foi retirada da entrada e posta deitada sobre dois cavaletes atrás da lona do circo. A bancada improvisada serviu para repousar o corpo do palhaço. Dependendo da bilheteria da noite, lhe comprariam um caixão pela manhã.
A vida cessa, mas o espetáculo continua para os vivos. Antes de entrarem no picadeiro, a contorcionista e o aprendiz de palhaço acenderam algumas velas e deixaram o pequeno pipoqueiro com a incumbência de velar o corpo do pai. Caso fosse preciso, o menino poderia espantar um eventual ataque de cachorro ou outro animal atraído pelo cheiro de morte.
Enquanto, dentro da pequena lona o show se arrastava lento e sem barulhos, lá fora o velório seguia quase solitário, escondido pela noite. Ao final da apresentação, sem pipoca e com a maioria do público composta pela família do dono da loja de tintas, a bilheteria fracassou. O palhaço terminou sem caixão e sepultado direto na terra.
A placa, tingida de vermelho pelo sangue do palhaço, precisou ser lavada com escova, água e sabão. Depois da limpeza, restaram as últimas poucas letras visíveis na placa. Se não fosse pelo tamanho desproporcional, a placa teria servido de epitáfio para a sepultura. O palhaço que em vida foi pintor, dono de circo, marido da contorcionista e engolidora de fogo, pai do aprendiz de palhaço e do pipoqueiro, e que de agora em diante, por não ter caixão, seu corpo seria “...DA TERRA”.
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Contar para vivir!
Que lindo emocionante ❤️