Conto - O Urso, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- 25 de abr.
- 4 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto como médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grane (MS), João Francisco Santos da Silva, com "O Urso".
O Urso
O ataque ocorreu em data e horário incertos. O homem caminhava lentamente quando foi surpreendido pelos grunhidos do enorme animal. A luz do sol incidindo em seu rosto, aliada a catarata senil lhe dificultaram, em um primeiro momento, identificar o agressor. Mas, breves instantes foram suficientes para reconhecer o monstro negro. Não tinha dúvidas, só podia ser ele. Depois de tantos anos em perseguição, finalmente se encontraram.
Junto com a fera vieram lembranças de tempos distantes, quando ele e sua mãe caçavam ursos. Os dois caminhavam de mãos dadas, segurando firme a mão um do outro. Seguiam pela trilha que cruzava o bosque a passos tão rápidos e largos quanto as suas pernas permitiam. Naquela época, ainda era sua mãe quem lhe acompanhava nesse tipo de aventura. Na verdade, a mãe desconhecia as intenções de caçador do menino. Em sua cabeça de mãe, necessitavam ir o mais depressa possível por causa do urso, não para caçá-lo, mas, para não serem encontrados pelo animal. Enquanto o menino, em sua cabeça aventureira, caçava o animal, a mãe estava determinada a protege-lo da fera. E assim iam cortando caminho pelo bosque.
O urso era um bom motivo para os dois andarem rápido, sem distrações e sobretudo sem parar. Retornar para casa com o caçula era tarefa essencial. Em casa os outros três filhos e o marido a esperavam. Durante o tempo que durou a expectativa do menino em encontrar o urso, ele pensou que era até melhor sua mãe não saber que participava de uma caçada a animal tão perigoso. Ele poderia ser um urso polar branco. Combinaria com o clima de Curitiba, quase sempre frio e sem sol. Mas, não era. O menino caçava um enorme urso negro. Animal ambíguo. Sua aproximação amedronta e ao mesmo tempo atrai sua vítima, que desejando conhecê-lo melhor é sucumbido por ele.
Na entrada do bosque havia um imenso portal com três vãos. O vão central era o mais largo e alto. Possuía uma imponente estrutura de alvenaria que formava três arcos, sobre cada um dos vãos. E na faixada do arco central estava escrito em grandes letras: PASSEIO PÚBLICO. Entraram por um dos vãos laterais e seguiram pela rua principal que cortava o parque de ponta a ponta. Na rua ladeada por árvores, de quando em quando se viam algumas jaulas. Havia muitos pássaros, alguns macaquinhos, e até um serpentário. Só não viu o tal urso negro. Sua mãe lhe disse que talvez o urso não estivesse por lá naquele dia. Ela lhe deixava a esperança de um possível encontro futuro com a fera.
Ainda segurando na mão de sua mãe, voltou outras vezes no Passeio Público. A expectativa da procura e a decepção do desencontro, invariavelmente se repetiram. Teimoso, mesmo com poucas esperanças, continuava a caçá-lo. E sua mãe também se mantinha fiel a aventura. O que é um urso para uma mãe com quatro filhos e um marido para cuidar.
O tempo passou. Os poucos animais que haviam no Passeio Público foram transferidos para o zoológico da cidade. As pessoas, assim como sua mãe fazia, continuaram seguindo apressadas. Cortavam caminho pelo parque para chegar mais depressa em algum lugar qualquer. Foi nessa época que ele compreendeu um pouco mais sobre urso que a sua mãe dizia viver lá. Se sentiu ingênuo ao lembrar que quis matar o urso do Passeio Público. Quantos ursos ele teria que ter matado? E quantas pessoas não cumpririam seus compromissos, se não precisassem mais fugir de algum urso? Com certeza, o urso de que sua mãe falava pertencia somente a ela e não era o mesmo que ele caçava. Lembrou dos outros três irmãos e de seu pai.
Tempos mais tarde, suas pernas se alongaram, suas mãos foram soltas e seus pensamentos aprisionados. Cada vez menos, o urso e sua mãe lhe acompanhavam. Solitário, foi seguindo consigo mesmo. Quantas e quantas vezes, indo para a faculdade, desviava de itinerário e passava por dentro do Passeio Público. Buscar caminhos mais longos foi herança de sua mãe. Mas, diferente dela, ele não estava com pressa. Apenas, sentia pouca necessidade em chegar. E assim prosseguiu devagar e alargando distância. Possuía uma dificuldade crônica para seguir rotas e se manter no curso.
Alguns anos depois da faculdade, lá estava ele de novo caçando o seu urso. Desta vez, sua mão ia segura em outra mãozinha. Teve quase certeza que naquele dia o grande urso negro estava escondido atrás de algum arbusto. Porém, para não perder o costume, frustrou-se por não o ter visto. Faltou coragem para falar sobre o urso com o dono da mãozinha. O urso era criação sua e somente a ele pertencia. Naquela idade, seu pequeno companheiro já devia estar criando suas próprias feras.
Hoje, de mãos soltas, com as pernas fracas e a mente mais distraída, ele apenas o esperava. Então, sem procurá-lo, e sem surpresa, o tal urso negro resolveu reaparecer. Encontro assustador. Chegou do nada, rugindo tantas reminiscências passadas. Lhe fez lembrar de antigos companheiros em distantes caçadas. Animal ambíguo, assusta e atrai a vítima. Mesmo amedrontado, o homem se aproximou da fera. Seria a sua última oportunidade para conhece-lo. Velhos e cansados, enfim conseguiriam se enfrentar.





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Bom dia!
Excelente texto. Em sua essência, revela que cada indivíduo carrega, ao longo da vida, os seus próprios “ursos” e que, inevitavelmente, chega o momento de enfrentá-los. A analogia é muito bem construída, pois somente com o avanço da leitura se percebe que o “urso” não se trata de um ser físico, mas de uma elaboração simbólica da mente, representando medos, responsabilidades, desafios ou até mesmo a própria existência.