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Conto - O segredo dos cabelos, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 1 de fev. de 2025
  • 2 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "O segredo dos cabelos"


O segredo dos cabelos


Os cabelos negros e longos alcançavam a metade das costas. Eles se prestavam a qualquer tipo de penteado ou de corte. Talvez por isso, o pedido da moça indígena foi mal compreendido pela cabeleireira.

— Boa escolha! Com tanto cabelo, cortar menos de uma mão de comprimento vai ser quase imperceptível e fortalecerá as pontas. Até ajuda a crescer ainda mais saudável.

Contudo, a mulher explicou que não queria cortar somente as pontas. Ela necessitava deixar menos de uma mão de cabelo. Exatamente o tanto de cabelo que não coubesse na mão de um homem.

— Com cabelos tão lindos, brilhantes e saudáveis, porque cortá-los?

— Porque dói! Dói muito!

— Como assim? Como cabelo pode doer?

— Se não dói, faz doer.

—Tem certeza que quer cortá-los? Depois, ele demora tanto tempo para crescer novamente.

— Será que demora o tempo suficiente para ele se esquecer?

Quem sabe com uma boa conversa e um pouco mais de tempo na cadeira, ela convenceria a jovem a fazer outro tipo de corte de cabelo. Pensou a cabeleireira, que não conseguia compreender a escolha tão radical da moça.

O pequeno salão de beleza improvisado fazia parte de algumas ações de cidadania que estavam ocorrendo na aldeia Terena. A cabeleireira iniciou com a lavagem dos cabelos. Enquanto delicadamente os lavava, ia conversando com a moça. A jovem era de poucas palavras. Além de já ter oito filhos, um homem e uma mesa de tábua dura em casa, de sua boca não soube mais nada. Porém, outras partes de seu corpo foram mais inconfidentes.

Para relaxa-la, a cabeleireira massageou com suavidade a cabeça da jovem. À medida que pressionava as pontas dos dedos no couro cabeludo sentia algumas irregularidades. Inúmeras pequenas bolas macias que pareciam brotar da cabeça. A cabeleireira demorou algum tempo naquela dolorosa constatação. E então, decidida, pegou a tesoura, agora era ela quem necessitava cortar o cabelo da jovem mulher indígena.

A cada abrir e fechar da tesoura, pensava em quantas manchas existiriam na mesa de tábua dura. Pelos olhos da cabeleireira fios de lágrimas desciam continuamente. Os cabelos cortados cobriram o chão ao redor da cadeira. Com a testa exposta, foram

descobertas pequenas cicatrizes e linhas roxo-amareladas na fronte próximo a implantação dos cabelos.

Ao final, para ter certeza que o corte estava adequado ao pedido que lhe fora feito, a cabeleireira passou a sua mão entre os cabelos da mulher e não conseguiu prende-los entre os dedos.

— Veja se está bom. Cortei bem curto. Vai demorar bastante tempo para crescer. Você fica linda de cabelos curtos!

A mulher, agora quase sem cabelos, não falou nada. Apenas saiu e foi embora cabisbaixa. Mutilada, sem direito a uma das partes mais bonitas de seu corpo. Talvez envergonhada pelas cicatrizes a mostra. Provavelmente amedrontada, os filhos demoram a crescer, mais que seus cabelos, e o homem e a mesa continuavam em casa.

 
 
 

1 comentário

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Convidado:
07 de fev. de 2025
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João Francisco, tô vendo nascer uma estrela. Vc me fez chorar hoje.❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️

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