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Conto - O Padre e a Bruxa, por João Francisco Santos da Silva

Foto do escritor: Alex Fraga
Alex Fraga
12 de set.
5 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupuntura e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "O padre e a bruxa".


O Padre e a Bruxa


O novo padre chegou à cidade trazendo a esperança de tempos melhores para os fiéis. Os habitantes de Tormentes imaginavam que qualquer sacerdote seria menos rígido e malvado do que o antigo padre Cão. O recém-chegado aparentava ter pouco mais de 25 anos: era alto, muito magro, de rosto feio e antipático. Sua feiura e vaidade estavam no mesmo patamar. O homem arrogante nutria menosprezo por quase todas as pessoas. Por essas características, ficou conhecido como padre Viscoso. Pelo menos, possuía defeitos mais condizentes com os de outros seres humanos, diferentes dos do demoníaco padre Cão. Outra vantagem em relação ao seu antecessor era não ser adepto da prática de torturas. A não imposição de penitências físicas foi considerada uma pequena evolução pedagógica da igreja local. Fora isso, as pessoas apenas o suportavam porque era o padre — o representante oficial de Deus na pequena cidade.

Depois de algum tempo, começou a correr o falatório de que o jovem padre era o filho bastardo do velho padre Cão. Os mais antigos lembravam da misteriosa história ocorrida anos antes, envolvendo o padre Cão e a bruxa Gertrudes. Dizem que a bruxa fugiu da cidade prenha de um filhote do Cão. As pessoas então começaram a reparar tanto no comportamento quanto nos trejeitos do padre Viscoso. Queriam reconhecer nele os traços do suposto pai. Logo perceberam que o padre Viscoso possuía arrogância e mau humor idênticos aos do padre Cão. O jovem padre, quando irritado, grunhia como um porco, tal qual o antigo pároco fazia quando ainda estava na ativa. Contudo, diferentemente do padre Cão, que era adepto das novenas domiciliares, o padre Viscoso preferia ouvir confissões e aplicar penitências aos fiéis. Seu público-alvo eram as mulheres. Vivia disposto a doutriná-las, independentemente da idade, fossem solteiras, casadas ou viúvas. Por essa sua dedicação ao sacerdócio, muitas vezes ficava sob a mira de maridos e pais desgostosos com a conduta do padre na sacristia da igreja.

Depois que o padre se aproximou de Josiana, jovem viúva de um sargento da milícia local, perdeu um pouco o interesse em proferir penitências e absolvições. Conheceu Josiana por interesse. A moça vivia de suas costuras, e o cura lhe encomendou uns remendos na batina de rezar a missa de domingo. Em Tormentes, mulher sem marido tinha os dias contados: ou se casava ou era enviada para Poço das Almas.

O padre agora tinha uma nova preocupação. Não queria perder a atenção da jovem viúva para outro pretendente. Difícil saber se ele era correspondido em seu afeto. Josiana estava em situação complicada, e o religioso era seu único amparo. Depois da batina, vieram as ceroulas: primeiro para cerzi-las, depois para despi-las. O caso do sacerdote com a viúva tornou-se notório na cidade, embora ninguém se atrevesse a comentá-lo perto dele. E, infelizmente para o casal clandestino, o caso gerou frutos.

Por hipocrisia e ironia do destino, Viscoso era um fervoroso defensor da moralidade. Tinha por hábito criticar os frequentadores das casas de mulheres solteiras em Poço das Almas. Nutria um ódio especial por alguns dos moradores daquele gueto. Seu alvo principal, a bruxa Brígida, sempre surgia em seus sermões de domingo. Quando queria falar dela, o padre costumava contar a mesma historinha introdutória antes de entrar no assunto específico do dia:

— A bruxa portuguesa matou o marido para ficar com o amante. E depois matou o amante. Saiu fugida de Maranaguá quando foi pega preparando sopa de feto de mulher perdida. E agora está fazendo suas feitiçarias aqui perto, no vale dos excretas de Poço das Almas.

Depois desse prólogo, tratava de discorrer sobre os últimos crimes supostamente cometidos pela bruxa. Segundo o padre, eram crimes de barriga. Ironicamente, por ser parteira, Brígida costumava ser a última mulher a ver a barriga da gestante antes do parto. Contudo, o padre a acusava de desaparecer com as barrigas antes de completados os nove meses de gestação.

— A bruxa é a mãe da morte e desafia a Deus ao interferir na criação divina! Ela merece arder eternamente no fogo do inferno! Maldita seja toda a sua prole... — À medida que falava, seu discurso tornava-se mais e mais exaltado. Se fosse possível ver o pensamento do padre durante o sermão, provavelmente se veria a bruxa amarrada em um palanque com uma fogueira acesa ao seu redor. E ele estaria professando a sentença do tribunal inquisitório presidido por ele mesmo.

Os sermões do padre só serviam para criar mais mistérios em torno de Brígida. A forasteira chegou à cidade poucos anos antes e foi direto para Poço das Almas. Ninguém sabia de onde vinha aquela mulher. Difícil descrever sua aparência física. Dizem que impressionava por sua beleza, fora de qualquer padrão preestabelecido. Jamais foi à Beira-Rio, em Tormentes, nem passou perto da igreja. Embora nunca tivesse cruzado o caminho do padre Viscoso, ele era seu principal antagonista na cidade.

Morava sozinha. Não recebia homens em casa. Desde sua chegada, ela atraiu a atenção das mulheres locais. Brígida conhecia o segredo das plantas que curavam e das que matavam. As frequentadoras de sua casa vinham em busca de orientações, tratamentos e alívio para alguns de seus sofrimentos. Brígida era uma mistura de curandeira e parteira. Ela ajudou no nascimento de muitas crianças em Poço das Almas. Há notícias de que gestantes se aconselhavam com ela durante a gestação. E, no início, quando ainda não tinham barriga visível, conseguiam fazer uma viagem astral guiada pela bruxa. Com a capacidade mental e espiritual expandida, compreenderiam melhor os desígnios a elas reservados para aquela maternidade.

Com a nova situação de Josiana, a vida do jovem padre virou de pernas para o ar. Sempre dono da verdade, agora se sentia confuso e inseguro. Sinal de que devia ter algum sentimento, embora nunca o demonstrasse. Enfim, encontrou uma saída para livrar-se do problema. A solução encontrada lhe causava certo aborrecimento. Precisaria lidar com pessoas detestáveis.

Embora contrariado, tomou a decisão. Devido à gravidade da situação, foi até Poço das Almas, à casa de uma mulher solteira. Provavelmente, a única pessoa naquele lugar que poderia ajudá-lo. Chegou tarde da noite e, cabisbaixo, bateu à porta da bruxa. Quem a abriu foi ela mesma: Brígida, a mulher mais atraente de Tormentes e também a mais odiada pelo padre. Ali parado, olhando para Brígida, teve tempo de pensar se a entrada do céu e a do inferno poderiam ser pela mesma porta. Seu pensamento foi interrompido pela voz feminina:

— Quem diria! Até os padres recorrem ao auxílio de bruxas!

 
 
 

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