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Conto - O mistério do gato siamês, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 28 de mar.
  • 7 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "O mistério do gato siamês".


O mistério do gato siamês


Sumir por algum tempo era algo habitual para Petros e seus donos já estavam acostumados com tal comportamento. O bichano gostava de sair para caçar e ficava uma ou duas noites sem aparecer em casa. Sempre chegava de suas aventuras noturnas irritado, cansado e com cara de poucos amigos. Então deitava-se sobre uma estante do escritório e permanecia ali largado, dormindo por horas seguidas. De vez em quando um pum podre ou um arroto fedido lembravam a presença do felino no ambiente. Devia estar de barriga cheia e pesada por alguma de suas vítimas, e agora relaxava em seu momento de digestão e descanso.

Petrus era um gato siamês de porte médio, com grandes olhos azuis e vasto pelo branco mesclado com cinza. O que tinha de bonito, tinha de cruel. Caçador habilidoso, em um piscar de olhos conseguia abocanhar e deglutir uma rolinha adulta. Mas, em sua perversidade, preferia torturar as vítimas antes de devorá-las. Se estivesse com tempo era capaz de passar horas puxando uma lagartixa que em vão tentava fugir. No condomínio de casas em que vivia, levava a má fama de gato provocador e arruaceiro. Já recebera inclusive algumas ameaças de morte por conta dos inúmeros delitos atribuídos a ele. A sua folha corrida incluía desde arranhar capôs de carros estacionados em garagens, até roubo de bacalhau na cozinha e agressão com lesão corporal a cachorros dentro dos quintais de suas casas.

Contudo, a antipatia por Petrus não era consenso no condomínio. Além de seus donos, a vizinha da casa da frente sentia um carinho especial pelo gato siamês. Segundo ela, o bichano era um animalzinho incompreendido, e que precisava receber carinho e atenção. A vizinha idosa morava sozinha e talvez isso lhe fizesse ver Petrus com outros olhos. A verdade é que ela não acreditava em nenhuma das acusações feitas contra o seu amigo gato. Assim como os donos, ela preocupava-se com a sua integridade física.

Levando uma vida de crimes, ao longo de sua curta existência, o bichano angariou muitos desafetos. Não seria surpresa se tivesse um fim trágico. E o pior aconteceu. Depois de cinco dias sem regressar para casa, seus donos registraram o desparecimento. Postaram no whatsapp do grupo de moradores a foto do gato e ofereçam uma recompensa por quem tivesse informações sobre o seu paradeiro. A mensagem era essa: “Procura-se gato siamês que atende pelo nome de Petrus, ele é gato manso e caseiro, está desparecido desde segunda feira, dia seis. Se alguém o tiver visto, por favor avise”.

O morador da casa 19, uma das vítimas do gato, teve o capô de sua caminhonete bastante arranhado e não nutria nenhuma afeição pelo animal desaparecido. Ele escreveu uma pequena mensagem no mesmo grupo em tom de piada ou coisa parecida. “Procura-se vivo ou morto o bicho fujão. Recompensa-se bem por quem confirmar o seu sumiço, digo, informar sobre o sumido”.

Piada de mal gosto ou ameaça velada, seja lá o que for, o morador da 19 passou para a categoria de suspeito pelo desaparecimento do gato meliante. Talvez o mandante ou mentor intelectual de um possível crime motivado por vingança. A partir daí iniciou-se uma discussão bastante acirrada via whatsapp e com ameaças de parte a parte, os donos do gato ameaçaram fazer uma denúncia por maus tratos e crime contra animais, por sua vez, o morador da casa 19 pediria reparação por calúnia e difamação. Nesse momento, o síndico do condomínio propôs investigar e esclarecer os fatos. O condomínio possuía um sistema de câmeras de segurança. E foi através dele que conseguiram reconstituir os últimos passos do gato.

Na noite do dia seis, Petrus foi filmado às 19:32 caminhando por cima do muro dos fundos, na altura da casa 18. Sendo o muro comum a todas as casas daquele lado da rua. Após a terceira casa, ele desceu no quintal da casa 22, cruzou o corredor lateral interno e reapareceu em frente da casa. Aí cometeu seu primeiro delito da noite. Subiu na lixeira e destroçou o saco de lixo espalhando sujeira para todos os lados. Em seguida, saiu tranquilamente como se nada tivesse acontecido.

Atravessou a rua e saltou sobre o capô do carro estacionado na garagem da casa 23. O gato, de propósito, esfregou as patas várias e várias vezes, e apesar de estar escuro e as imagens não serem tão nítidas, suas unhas ficaram manchadas, provavelmente pela tinta metálica extraída do capô do carro. O gato lambeu as patas e voltou a caminhar pela rua.

O cachorro da casa 25 não parava de latir. Uma fox paulistinha que fazia muito barulho, mas, não tinha tanta coragem quanto ladrava ter. O gato percebendo a covardia da cadela chegou junto à grade do portão e frente a frente com a cachorra, num rápido golpe lhe arranhou o olho esquerdo. A cachorrinha saiu correndo e grunhindo.

O felino sádico e provocador continuou a jornada noturna. Ele chegou na casa 29 disposto a completar uma tarefa inacabada. Petrus havia atacado um ninho com dois filhotes de rolinha pela manhã. Fazia dias que estava atocaiando o ninho. Na primeira oportunidade, o gato deu um bote e conseguiu devorar um dos filhotes, enquanto o outro caiu indefeso no gramado. Só não devorou o segundo filhote porque a moradora da casa

o afugentou com um balde d’água. A última imagem que se tem do gato é ele entrando no quintal da casa 29.

Agora, além do morador da 19, também entravam na lista de suspeitos os vizinhos das casas 22, 23, 25 e 29. Caso cada vez mais complexo. Então, o que fazer? Convencidos pelo síndico, os donos do gato concluíram ser melhor não levar o caso adiante. A conta para pagar todos os danos causados por Petrus ficaria muito elevada.

Pelo menos por alguns dias o assunto esfriou. Ainda bem que a vizinha da casa da frente estava viajando desde antes do sumiço do gato. Tinha ido ver a filha e os netos que moravam em outra cidade. Ela nem devia ter aberto o seu whatsapp, pois não comentou nada sobre toda a discussão causada pelo sumiço do gato. Melhor assim, a vizinha idosa não sofreria tanto.

A rotina do condomínio parecia que voltara ao normal. Até que em uma manhã o morador da casa 22 teve seu carro avariado de forma idêntica ao modus operandi de Petrus. Dessa vez o mistério poderia ser esclarecido com maior rapidez. As câmeras de segurança registraram todo o ocorrido. Não havia dúvidas, Petrus estava de volta.

Apesar da maioria das pessoas não admitirem a existência de fantasmas, qualquer aparição de um suposto morto mexe com a imaginação. Se Petrus vivo já era motivo de muita preocupação, imaginem sua versão fantasma o que seria capaz de aprontar no condomínio?

Diante dessa nova ameaça, o grupo de moradores vítimas de Petrus decidiu realizar uma ação pouco ortodoxa. Procuraram um veterinário especialista em comunicação com animais desencarnados. Os seus serviços diferenciados possuíam também um preço diferenciado. Se fosse comunicação com desencarnados humanos, nada seria cobrado, mas com pet tudo fica mais caro. Enfim, em comum acordo o grupo de vizinhos decidiu fazer uma vaquinha para arcar com as despesas do médium de pets.

O médium visitou todos os lugares que o falecido gato costumava frequentar no condomínio. Foi em tantas casas que todos os moradores que lhe acompanhavam ficaram cansados. Mas, faltava a última, justamente a da vizinha da casa da frente de Petrus. Com a vizinha viajando e a casa fechada, o médium fez uma cara de contrariado. O sensitivo estava capitando uma energia mais intensa justamente naquele local inacessível.

Foi então que um táxi parou em frente à casa da vizinha e para surpresa do grupo que acompanhava o médium, do carro desceu a vizinha com o Petrus no colo, vivinho da silva. E foi a ela quem esclareceu os fatos.

— Eu sempre soube que Petrus era bonzinho. Vocês estavam difamando o pobre coitado. Meu amiguinho costuma vir em minha casa para comer a torta de sardinha que eu faço especialmente para ele. Apesar dos gases que lhe causa, ele adora minha torta. Depois de comer ele fica na sala vendo TV junto comigo. Permanece aqui por dois ou três dias e de barriga cheia volta para casa dele. Dessa vez eu o levei comigo na viagem para o afastar por uns tempos desse ambiente hostil e perigoso. Concluiu a vizinha idosa.

— Mas, se a senhora viajou no dia 5, como poderia haver imagens do gato no dia 6? E também as últimas de ontem à noite? Seria um irmão gêmeo dele? — Indagou o síndico.

— É outro gato! Petrus tem os dois olhos azuis. O gato da filmagem tem um olho azul e o outro verde — disse a velhinha observadora e profunda conhecedora de Petrus.

— Puxa! É mesmo! Aquele gato que eu levei tinha um olho de cada cor — confessou, sem querer, o síndico.

Surpresos com sua última afirmação, todos olharam para o síndico de maneira inquisitória. Agora já era tarde, ele teria que explicar toda a história.

— Eu já não aguentava mais ouvir tantas reclamações. Precisava dar um basta para essa situação desagradável. Foi aí que conversando com o colega síndico do condomínio que fica aqui mesmo no bairro, ele me contou como resolveu problema idêntico ao nosso. Ele me disse que capturou o problema. E para não o abandoná-lo a própria sorte, encontrou um novo lugar com condições favoráveis para o gato sobreviver. Então, resolvi fazer a mesma coisa com o Petrus. Quer dizer, com o gato parecido com o Petrus.

O síndico permaneceu algum tempo em silêncio com cara de quem estava tentando recordar de algo.

— Já sei o que houve. Que canalha! Ontem o síndico do outro condomínio ficou um bom tempo parado em frente da nossa portaria. Ele carregava um saco muito suspeito na mão — revelou o síndico indignado.

Mistério resolvido. Petrus foi encontrado e inocentado das acusações. Os vizinhos pediram desculpas para os tutores do gato siamês. E Petrus seguiu a sua vidinha tranquila de assistir TV e comer torta de sardinha feita pela sua vizinha protetora. Mas, o síndico ainda teria muita dor de cabeça com o gato sósia de Petrus.

 
 
 

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