Conto - O menino Jamil Biga I, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- 7 de jun. de 2025
- 3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de poesia com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "O menino Jamil Biga I".
O menino Jamil Biga I
Vida de viajante. De passagem por muitos lugares. Sempre indo e nunca voltando. Agora, relembrando minha vida, faço um retorno a muitos lugares aos quais nunca regressei fisicamente. Deu vontade de contar minhas memórias. Por que escrever a história de uma pessoa anônima? Quem vai querer saber quem foi Jamil Biga? Não sei. Talvez somente o próprio Jamil Biga. Quem sabe escrevendo encontro algumas respostas. Ou termino por me confundir de vez.
Nasci em uma rua suja, feia, tortuosa e sem saída. Ela terminava em um barranco, e mais abaixo havia uma imensa várzea. O Brejo Podre, como a gente do lugar chamava aquele lodaçal recoberto por relva e alguns arbustos. No final da tarde sempre fedia mais. Meu irmão dizia que o cheiro vinha de certas algas em decomposição. Naquela época ainda acreditava em meu irmão. Na realidade, vivíamos as margens de uma grande latrina. Todo o esgoto da vizinhança ia parar no Brejo Podre. Acho que essa primeira e marcante experiência me fez tão tolerante com o variado repertório de maus cheiros que experimentei ao longo da vida.
Estranho, quase não consigo lembrar da casa em que nasci. Apenas alguns detalhes me vêm à memória como lampejos. E nem sempre confio que sejam verdadeiros, ou mera ilusão da minha mente. A casa de tábuas encardidas, cheia de frestas e sem pintura. Mosquitos e calor no verão. Frio e cheiro de fumaça no inverno. Cheiro de álcool e berros seguidos por choro de mulher. O esquecimento nos salva de nossas próprias teias. Ele é útil, pelo menos enquanto não conseguimos desenovelá-las.
As vezes parece que faz tanto tempo, outras acho que foi ontem. Ele saiu de madrugada. Sem despedidas. Foi embora e levou junto a história das algas em decomposição. Fiquei só com o cheiro de esgoto. Ele não teve coragem de se despedir. Nunca mais lhe vi. Mentir às vezes pode ser demonstração de amor. Melhor pensar que são algas em decomposição. Melhor não se despedir. Melhor não mentir.
Parecia fácil escrever sobre as minhas aventuras como caixeiro viajante. Mas, como cheguei aqui? Acho que comecei pela pior parte. Primeiro tive que lembrar dos cheiros e dos sons. Esgoto, álcool, berros e choros. Um dia percebi que não havia mais berros, nem choro de mulher. Só restavam os cheiros de álcool e de esgoto. Quando deixei de sentir esses cheiros? Já devia ser adolescente. Mas, isso é outra parte da minha vida. Sinto que ainda não perdoei meu irmão. E minha mãe? E meu pai? Revirar essas memórias me confunde ainda mais. Estou preso na grande teia. E para me desvencilhar
precisarei sentir um pouco mais desse cheiro de esgoto e de álcool, e ouvir tantos outros berros e choros. Talvez eles sejam a pista para que eu reencontre o menino Jamil Biga.
Que confusão. Agora além de sons e de cheiros, sinto um gosto acre na boca. Quem chorava e quem fazia chorar? Quem fugiu do Brejo Podre e quem permaneceu com ele? Respiro fundo, uma, duas, três vezes e desisto. Preciso de um tempo, estou confuso. No momento fico por aqui, apenas remoendo esse fedor nauseante.
Campo Grande, 28 de maio de 2024





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