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Conto - O livro chinês, por João Francisco Santos Da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 14 de jun. de 2025
  • 5 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "O livro chinês".


O livro chinês


— O que aconteceu com sua orelha? — Perguntou o orientador do grupo, já conhecendo a resposta.

— Antes que digam que inventei toda essa história, para somente no final revelar haver sido um sonho, desde já, entrego-lhes parte da verdade. O que ocorreu não foi um sonho e sim um pesadelo. Caso alguns de vocês sejam curiosos, peço que me escutem até o final do relato deste estranho acontecimento. — Respondeu o homem em tom solene.

— Ok. Estamos todos ansiosos para ouvir a sua história. Suspirou o orientador sem tirar os olhos do relógio.

— Já que insistem, lhes contarei todos os fatos, sem omitir nada.

O inverno em Campo Grande costuma ser de dias quentes com noites frescas. Porém, uma ou duas vezes ao ano, a temperatura despenca e faz frio intenso, digno do outono nórdico. Numa dessas poucas noites geladas de junho, me encontrava ocupado com a tradução de um conto chinês de início do século 20. Aqui peço licença para um esclarecimento: não conheço mandarim, tampouco sou tradutor de qualquer coisa. A versão do texto chinês, traduzida para o espanhol, me chegou as mãos por mero acaso. Veio escondida, juro que por descuido, no meio de uma coleção de revistas antigas de O Cruzeiro, compradas num sebo por uma bagatela. Sem mais de longas, vamos à história.

A noite invernal apresentava-se perfeita para tão agradável leitura, melhor ainda quando acompanhada por petiscos e uma bebida quente. Se eu não fosse preguiçoso, teria fritado bolinhos de chuva e assado broa de fubá. Porém, preferi ir à padaria perto de casa e pedi para a balconista embrulhar 10 orelhas de gato. Como ela permaneceu parada, me olhando com a cara interrogativa, apontei para balcão lhe mostrando o que eu queria.

— Ah! São cuecas viradas!

Tanto faz o nome, cueca virada ou orelha de gato, é tudo a mesma coisa. Pensei enquanto as colocava num prato sobre a mesa de centro de minha sala e abria uma lata de biscoitos amanteigados, desses que se compram mais pela beleza da embalagem que pelo conteúdo. Só faltava a bebida. Com doces prefiro café, mas em homenagem ao livro chinês, optei por um bule de chá quente e fumegante. Tudo pronto, me acomodei na poltrona e comecei inacreditável aventura ...

— Pô! Conta logo a história! — Gritou um dos colegas de grupo, que não conseguia permanecer sentado e andava o tempo inteiro de um lado para outro.

— Pois bem. Continuemos! — Disse o contador, contrariado pela brusca interrupção

O texto tratava das peripécias de um chinês daltônico, talvez esquizofrênico, leitor de um livro. Na história, toda vez que o chinês lia a frase: “E assim aconteceu”, os personagens do livro ganhavam vida e chegavam junto a ele, ora lhe divertindo, ora lhe atormentando, e só voltavam de onde viam, depois do chinês lhes dizer: “ Sigam em paz”. O chinês leu que haveria um baile no palacete de rico comerciante em Xangai. Quando estava prestes a iniciar a descrição do baile, ele leu a frase: “E assim aconteceu ”. Logo em seguida, lá estava ele dentro de imenso salão de festa. Entre os convidados, todos queriam dançar com a filha do anfitrião, a moça mais linda e desejada do sarau. O leitor chinês também a desejou e ao longo da noite foi uma sucessão de muitos “E assim aconteceu”. A cada frase repetida, ganhava mais uma dança com a beldade. E assim aconteceu a noite inteira, até marcar um encontro com a jovem para a tarde do dia seguinte. O chinês leu os próximos dois parágrafos do estranho livro e chegou ao encontro marcado. A jovem lhe esperava nos jardins do palacete. Mas para abraçá-la, o chinês precisaria transpor o portão principal. Nele havia uma arcada superior com dois leões esculpidos em alto relevo. Confiante, despreocupado e apaixonado, o leitor chinês disse as palavras mágicas: “E assim aconteceu”. Nesse instante, dois leões saltaram da página do livro e surgiram em sua frente. O chinês saiu correndo e, no desespero da fuga, caiu de uma alta ribanceira, quebrando o pescoço. Segundo contam, o livro amaldiçoado foi queimado, a fim de nunca mais causar alucinações em pessoas de mente fraca.

A versão que eu tinha em mãos seria uma cópia reescrita de memória, anos depois da destruição do livro original. Li as poucas páginas introdutórias e senti leve sonolência. Escutei o som de caixinha de música de corda, no início distante, depois mais próximo. Me encolhi um pouco, percebendo uma corrente de ar frio. Olhei para a lata decorada de biscoitos dinamarqueses sob a mesa de centro, e por pilhéria falei:

— Assim aconteceu!

Risos e vozes altas invadiram minha sala. Com as vozes chegaram crianças e jovens vestindo luvas, gorros e roupas de inverno. Uns brincavam em pequenos trenós, enquanto outros deslizavam com patins por um lago gelado. A neve caía sem trégua e logo cobriu de branco o chão da sala. Tive vontade de fazer um boneco de neve. Porém, mesmo fascinado com a cena, eu tremia e sentia muito frio. Meus trajes eram insuficientes para manter-me aquecido. Antes de congelar, lembrei da frase mágica e a gritei o mais alto que pude:

— Sigam em paz!

No mesmo instante, voltei à sala quentinha e, assustado, fechei o livro. Não desejava ter o mesmo fim do chinês da história. Fiquei intrigado, pois eu nem havia passado da segunda página do livro. Então olhei detidamente para a lata de biscoitos em cima da mesa e compreendi de onde saíra tal alucinação. Ainda restava uma cueca virada, a xícara e o bule de chá. Curioso, resolvi desafiar o perigo. O chá e a cueca virada não poderiam ser perigosos. E lá fui eu ao encontro da tragédia. Mentalizei o objeto, que acreditava ser o mais inofensivo deles, e proferi a frase:

— Assim aconteceu!

Só tive tempo de me atirar ao solo. A fera negra saiu não sei de onde e deu um único bote. Fui rápido o suficiente para não ser abocanhado por ela. Contudo, a boca do animal me atingiu de raspão. Mesmo caído no chão, com sangue escorrendo pelo rosto, consegui gritar antes de sofrer o ataque fatal.

— Sigam em paz!

Dita a frase salvadora, de imediato o felino despareceu na noite. Reconheço ter mais sorte que juízo. Termino de contar meu breve relato com esta bandagem na orelha esquerda. Ainda bem que eu pensei primeiro na orelha de gato, imaginem se eu tivesse desejado o chá mate Leão? Agora não estaria aqui para lhes contar tal história que, de tão ridícula, deve dar raiva em vocês a ouviram até o final. — O homem terminou de falar dando dois tapas na própria orelha enfaixada.

— Fique tranquilo! Ninguém está lhe julgando. Aqui é um grupo de autoajuda e o objetivo é promover o retorno de vocês ao convívio social. Disse o psiquiatra condutor do grupo terapêutico.

— Ih! Acho que você vai perder essa orelha. Semana que vem vai ser Natal e, se desde junho não curou, não cura mais! Você deveria parar de bater tanto nela! — Disse um dos colegas do grupo.

 
 
 

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16 de jun. de 2025
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