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Conto - O Gato Istambul, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 6 horas
  • 3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "O gato Istambul"


O Gato Istambul


Faz um tempo viajei a Istambul. Não vou descrever aqui as belezas, muito menos falar sobre as tantas atrações turísticas milenares, só digo que vale a pena conhecê-la. Lugar inspirador. Voltei de minha viagem com o desejo de escrever uma pequena história sobre os gatos de Istambul. Apenas uma informação curiosa, Istambul é a cidade dos gatos. Lá os bichanos, aos montes, andam livres pelas ruas. E a julgar pelas vasilhas com ração e água, espalhadas pelas calçadas, são bem tratados.

Bem, voltando à minha história sobre os gatos de Istambul. O protagonista de meu texto, viria para o Brasil, clandestino no porão de um navio. Pelo menos na minha cabeça seria assim. Chegado da Turquia por mar, ele desembarcaria no porto de Santos, pronto para suas peripécias em terras brasileiras. No início, até aprender o português, precisaria viver, ou melhor, perambular pelas ruas da zona portuária. Depois, seguindo a minha imaginação, se ela assim me permitisse, o gato esperto, aproveitando o descuido do motorista, embarcaria no porta-malas do ônibus da Viação Cometa.

Subiu a serra e, em São Paulo, foi morar no bairro do Bom Retiro. O gato tinha informações privilegiadas fornecidas por um colega siamês, vagabundo, frequentador dos piores lixos de botecos do porto. Segundo o siamês, o Bom Retiro era o melhor lugar para encontrar os conterrâneos da Turquia. Foi assim que ele chegou na lavanderia e tinturaria do seu Simon. O tintureiro era um libanês, mas o gato nunca soube disso. Na verdade, ele fez a mesma confusão que tantos fazem: qualquer dono de lojinha vira turco no Brasil.

Vida boa a de um legítimo gato turco, no Bom Retiro. Durante o dia, ele passava esticado no balcão da tinturaria, dormindo e soltando puns. Mas a parte boa mesmo, só iniciava à noite, depois do expediente no balcão da tinturaria. O Turco, como o gato era conhecido, tinha lábia. Ele adorava contar para os outros bichanos, companheiros de noitada, histórias de quando vivia em Istambul.

O Turco falastrão, para impressionar os colegas paulistanos, ora dizia ter vindo de Constantinopla, outras vezes que viera de Bizâncio. Mas a malandragem paulistana é escolada, e desconfiavam do estrangeiro falador. Um gato de olhos puxados, com sotaque esquisito: será que falava a verdade ou seria tudo história inventada? Onde é que se viu um gato dar a volta a um minarete de uma mesquita azul sentado num tapete voador? Que mentiroso! Se ao menos fosse na sinagoga da rua Prates!

O fato é que não escrevi uma linha sequer sobre o gato Istambul. Contei tudo isso até agora, porque hoje vi uma bolsinha, com o desenho de um gato gordo, debruçado

sobre a cidade, olhando para o estreito de Bósforo. Bolsa de pano pequena, escrita Istambul, lembrancinha de viagem. E não é que dentro dela tinha um gato. Sem suspense, era só um gatinho barrigudo, de plástico, brinquedo de criança. Parece besteira, mas foi o gatinho de plástico que me lembrou da história que eu pensei em escrever e até hoje não foi para o papel.

Quem sabe um gato voando em um tapete mágico renda uma história infantil. Mas acho que já escreveram algo parecido em Aladim e a lâmpada maravilhosa. Um gato mentiroso vivendo no Bom Retiro também pode render boas aventuras.

 
 
 

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