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Conto - O filho do Cão, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 1 de ago.
  • 4 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "Filho do Cão".


O filho do Cão


O Padre Cão olhou com desprezo e nojo para a velha mijada em cima dos caixotes que lhe serviam de cama. Apenas com um olhar e franzir de sobrancelhas, os diablitos compreenderam a ordem do chefe. Ambos pegaram a velha e, sem dificuldade, a carregaram até a margem do rio. A anciã foi despida e arrastada por sobre a areia de pedregulhos. Primeiro de barriga para cima e depois de barriga para baixo. A velha ficou com a pele em carne viva e sangrando. A fase seguinte foi esfregar sal grosso nas feridas. Terminada a primeira sessão de tortura, trouxeram novamente a velha para dentro de casa, largando-a no chão. O Padre Cão rezou repetidas vezes a mesma oração e depois saiu sem dizer nada. Voltaria na próxima noite para orar enquanto seus diablitos exorcizariam os espíritos maléficos das duas irmãs que viviam com a avó torturada.

Contudo, com Gertrudes e sua pequena família as coisas saíram do controle do Cão. Após a primeira noite de torturas, a avó de Gertrudes passou mal. Começou a vomitar, seus olhos tornaram-se encovados e a boca seca anunciava a morte iminente. A velha morreu antes do Padre Cão chegar para a segunda noite de novena. Restava às duas moças fugir ou serem as próximas vítimas do padre e seus diablitos. Embora não chamassem a atenção pela beleza, Gertrudes e sua irmã possuíam algo especial. As duas mulheres traziam um feitiço forte o suficiente para enfrentar o padre e afugentar os diablitos.

O trio das trevas foi recebido com o choro sentido das mulheres pela perda da avó. Gertrudes fez um chá de flores vermelhas e folhas verdes. Mesmo os corações mais diabólicos são ludibriados por uma feiticeira ladina. Hipnotizados, os três homens aceitaram e prontamente beberam o líquido enfeitiçado. Depois de dois goles do chá, os diablitos começaram a ter alucinações. Enquanto um viu um dragão cuspindo fogo, o outro se deparou com uma falange de caveiras empunhando foices. Os dois apavorados fugiram e, por ironia, correram para o lado do rio, dando de cara com a velha morta que gargalhava sem parar. No desespero, se atiraram no rio, desaparecendo em suas águas escuras.

Para o Cão, o paraíso. O chá teve efeitos afrodisíacos. Mesmo o padre, que só se interessava por meninos, não resistiu à luxúria e a sensualidade de Gertrudes. Com a fêmea nua, de pernas abertas, o Cão não teve dificuldade para encontrar os caminhos. Uma vez satisfeito o desejo, ficou deitado no chão de barriga para cima, e enquanto olhava para o teto viu o rosto de Gertrudes que se ampliou tomando conta de todo o espaço do ambiente. Nesse instante, ela lhe proferiu a sentença:

— Hoje fui eu quem lhe devorou. Eu lhe comi da mesma forma que você costuma comer os meninos que lhe agradam. A diferença é que lhe comi com asco e nojo. E desse dia em diante você me pertence. Daqui para frente, cada vez que eu quiser lhe machucar, usarei o boneco de vodu que vou parir. Enquanto falava, a moça passava a mão em sua barriga, que aos olhos do padre parecia expandir e retrair. O Padre voltou à realidade com o mijo da irmã de Gertrudes escorrendo pela cara. Definitivamente ele estava marcado pelo feitiço das irmãs bruxas.

Três dias depois do ocorrido, próximo à barra do rio, foram encontrados os corpos dos dois diablitos. Os dois, beberrões inveterados, provavelmente estavam embriagados quando caíram no rio. Outra possibilidade é que o parente de alguma das muitas moças por eles defloradas tenha dado fim aos estupradores. As duas irmãs também desapareceram de casa. Gerusa foi morar em Poço das Almas numa casa com outras mulheres solteiras. E Gertrudes subiu a Serra, carregando em seu ventre o veneno do Padre Cão.

Desde aquele dia o Padre Cão nunca mais foi o mesmo. Passou a ser afligido por dores lancinantes, que podiam ocorrer em qualquer parte do corpo e como apareciam, desapareciam sem aviso prévio. Durante as missas, os ouvintes sentiam um forte cheiro de urina enquanto o Padre Cão proferia o sermão. A experiência daquela noite se manteve em seus pesadelos pelo resto da vida. Viveu anos com medo do dia em que o filho da feiticeira voltasse à cidade.

Até que, um dia, um jovem padre veio para assumir a paróquia e substituir o Cão. Aterrado com o fatídico encontro, o velho afundou de vez em sua demência. Desde então passou a falar somente coisas sem sentido:

— Senta aqui, menino!

— Ainda não foi suficiente, põe mais sal na ferida das costas! — Ave nosso de cada dia.…!

— Meu filho, que bom que você veio me ver!

— Cala a boca, velho louco. Quantas vezes já lhe disse que eu sou o padre que assumiu o seu lugar.

O jovem padre grunhiu como um porco.

 
 
 

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