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Conto - O falsificador de memórias, por João Francisco Santos da Silva



Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clinico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "O falsificador de memórias",


O falsificador de memórias


Um dia ela me deu uma tempestade e em troca pediu-me uma história. Mal sabia ela que sua história já existia, só faltava trazê-la de volta. Então, fui atrás delas, da história e da tal tempestade que ela me oferecia como escambo. Precisei voltar mais longe no tempo, que na clareza de sua memória, ela percebia como sendo logo ali. Como bom investigador segui as instruções fornecidas. E lá estava eu parado diante da estação. De acordo com o orientado cheguei antes das quatro horas da manhã, horário em que carroças, carroceiros e passageiros começavam a chegar. Madrugada fria e molhada por uma garoa grossa. Precisei sentir minha pele arrepiar, para acreditar que no passado fazia frio em Miranda. Eu sabia que estava no lugar certo, mas, cadê a tempestade? Tinha os cabelos úmidos pela garoa, e ainda nada de minha tempestade.

Continuei ali parado esperando por mais confirmações. A primeira chegou com uma charrete que trazia um senhor vestido com roupa de sair e sua mala de viagem. Algumas charretes depois e a chegada de mais passageiros e suas bagagens, me confirmaram ser ali mesmo o local do encontro. Mas, e se eu estivesse na data errada? Confirmei que era julho, mês de férias escolares. Então, escutei o barulho do trem que agora parecia prestes a partir. Me apressei e fui até a plataforma de embarque. Foi quando avistei um casal de aparência conhecida. Muitos anos rejuvenescidos e, ainda, bem próximos um do outro. Como o tempo passa e as coisas mudam. De longe, não consegui ouvir o que os dois falavam, provavelmente davam os últimos conselhos e se despediam de quem eu imaginava estar no trem.

De onde eu estava não conseguia ver seu rosto. Sabia ser uma menina de 10 ou 12 anos. Com olhos escuros e lindos cabelos desejosos por se encaracolar livremente. Imaginei que só poderia estar sorrindo, de férias e a caminho da casa da vó em Corumbá. E mesmo com o frio da madrugada, sua mão transpirava. Mistura de ansiedade e excitação pela viagem. Olhei para o céu e não havia mais garoa. Muito menos sinal de tempestade no ar. Naquele instante, resolvi que para encontrar a tal tempestade teria que seguir no encalço da menina. Embarquei no trem e instintivamente pensei em sentar-me ao seu lado. Mas, me lembrei que essa história pertencia somente a ela, eu estava ali apenas a procura de minha tempestade.

Não sei quanto tempo levou para chegar na primeira estação. Mas, foi suficiente para a menina dormir e acordar. Acordou com a voz de uma índia terena que passou andando pela plataforma rente ao trem oferecendo chipa, peixe frito e guavira. A menina acordou mais com vontade de comer do que com fome. Ela adorava chipa. Sua mãe, ainda atenciosa e precavida, cuidou de abastecer a matula da filha com pão com queijo, chipa e bolachas caseiras, feitas por ela mesma. Como o tempo passa e as coisas mudam. Difícil imaginar que nessa época ainda fazia frio em Miranda. Enquanto mastigava a sua merenda, a menina olhou para fora e se deteve num cachorrinho vira latas de pelo curto, caramelo, magro e com as costelas visíveis. Vasculhou em sua matula e lhe jogou um pedaço do pão com queijo. Lembrou do pai, homem misterioso e de poucas palavras. Muito complicado para desvendar o que se passava por trás daqueles bigodes. Seria divertido ter um cachorro que pudesse dormir no quarto com ela. Quem sabe o cachorrinho afugentaria parte do silêncio da casa.

Depois dessa parada, o trem prosseguiu sem pressa rumo a Corumbá. No meio do caminho, ela teve a impressão que viajava em um navio. Na imensa planície alagada, as águas quase subiam nos trilhos da ferrovia. De onde estava sentada, a menina só avistava água. Nos esparsos pedaços de terra, jacarés e tuiuiús se amontoavam em bandos. Pensou que ainda não sabia nadar. Também não sabia porque sua mãe não gostava de falar em morte. Então passou as mãos pelos cabelos, e sorriu. Lembrou que estava de férias e que em Corumbá seu cabelo também estaria mais livre.

Sentiu um frio na barriga quando o trem passou pela ponte do rio Paraguai. Foi uma única vez à praia, pisou na areia, viu as ondas e ouviu o barulho do mar. Som estranho, se sentiu incomodada com ele. Mas, ali sobre o rio a emoção era outra. Diferente do mar, pelo rio ela sentia uma afinidade inexplicável. Pensou que mesmo que soubesse nadar não se atreveria a mergulhar naquele rio tão grande, de águas escuras e profundas. Porém, um dia ela gostaria de passear por ele. Navegar rio acima, ou rio abaixo. Ou rio acima e abaixo no mesmo passeio. Navegaria sem pressa. Diferente de quando foi à praia e a viagem foi tão rápida que nem teve tempo para tentar compreender melhor os sons do mar. Também queria entender melhor sua mãe. Quão parecidas eram as duas. O som do mar, as águas escuras e profundas do rio, a morte, o medo. Olhou para os farelos dentro da matula. Devia ter muitas coisa que as uniam.

Estava bem acompanhada. Levava um livro que foi lendo à prestação, tentando prolongar o fim da leitura. Mesmo assim, a história terminou antes do final da viagem. Gostosa essa sensação de liberdade e de viajar sozinha. Mas, seria bom poder contar a história do livro para alguém. Seu pai podia ser menos ocupado. Os dois poderiam viajar juntos, viriam contando jacarés pelo caminho. Agora as casas e as ruas começavam a surgir avisando que a viagem estava quase terminando. Somente nos momentos finais lembrou de sua irmã mais nova. Pensamento breve, logo se foi. A vó, e as tias já deviam estar na estação lhe esperando.

O dia quente e ensolarado, definitivamente indicava que nenhuma tempestade estava por vir. Foi então que eu percebi que seguia a pista errada. A tempestade não estava mais nessa história da menina. Depois que ela me deu sua tempestade, ela passou a ser parte da minha história. Agora só me restava sair de Corumbá e ir para Curitiba, lá eu sabia onde encontrar a minha tempestade.

Devo confessar a minha incompetência para continuar essa história da menina. Estou me sentindo como um falsificador de memórias alheias. Então, paro por aqui. Mas, fico em dívida com ela porque já encontrei a minha tempestade e em troca estou lhe dando uma história inacabada e, ainda assim, com algumas informações não muito confiáveis. O que ela levava em sua matula? Qual a cor do cachorrinho da estação? Ela lia um gibi ou um livro? Coisas que só ela poderá contar. Agora eu também fiquei curioso para saber toda a história dessa menina e como foram aquelas férias com a vó e as tias em Corumbá. Sei que a vó era costureira e cinéfila, ou seja, garantia de roupas novas, cinema, sorvete e muito mais...



Campo Grande, 14 de abril 2024

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2 Comments

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Guest
May 25
Rated 5 out of 5 stars.

Fabuloso texto. Muito legal!

Juliana Moura de Carvalho

Rio de Janeiro RJ

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Guest
May 25
Rated 5 out of 5 stars.

👏👏👏👏👏👏👏

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