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Conto - O enterro das pedras, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 18 de out.
  • 4 min de leitura
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Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "O enterro das pedras"


O enterro das pedras

 

Enquanto observava pela janela de seu apartamento a chuva caindo lá fora, o médico pensou que história real é algo que não existe. Alguém mal avisado um dia iria contar que enterraram muitas pedras em caixões lacrados. Entretanto, ele nunca se esqueceria daqueles últimos ruídos da respiração ofegante, dos olhos fundos, quase opacos e a face refletindo sofrimento e medo. Com certeza não eram pedras.

Um pouco ansioso, buscou em sua pequena biblioteca um velho livreto comprado há muitos anos em um sebo. Lembrava-se que logo na primeira página constava esse breve exórdio:

“Tenho três grandes medos: que estando vivo me falte o ar nos pulmões; que a minha pouca sapiência seja sucumbida pela ignorância dos que possam decidir pela minha vida ou pela minha morte; e que a minha versão dessa história seja perdida ou adulterada”.

O livreto narrava uma trágica história ocorrida séculos atrás. Não se tratava de grande obra literária.  Porém, tinha a pretensão de trazer informações de uma testemunha ocular de grande tragédia. Continha poucos detalhes e provavelmente alguns dos fatos descritos eram inverossímeis ou exagerados. E o próprio autor já alertava seus futuros leitores sobre isso:

A história toda é controversa, e essa aqui por mim contada, não pretende ser, e não será a versão oficial”.

Mesmo com tais ressalvas, ainda hoje, a história lhe parecia atual. Quem sabe por isso, quando se deu conta estava sentado a reler algumas passagens do livreto.

 “O ar frio fedia a podridão, nele circulava o cheiro da morte. Onde há dez dias havia ruas e calçadas, agora só escombros e fumaça. Corpos humanos e de animais mutilados e em franca decomposição igualitariamente misturavam-se nas mesmas pilhas. Nos primeiros dias ainda se ouviam gemidos e choros abafados vindos dos escombros. Seria menos doloroso encontrar as vítimas já mortas. As vivas, bastante lesionadas, sofreriam um pouco mais antes de morrer. De qualquer forma, havia alguns abnegados práticos e barbeiros como eu que enfiávamos as mãos por debaixo de escombros procurando por punhos ainda quentes e com pulsação. Quando achávamos um infeliz moribundo, não tínhamos muito o que fazer. Uma palavra, um consolo, uma mentira, uma promessa, um gole d’água. Nada mais que isso...”.

Saltando algumas páginas à frente, a história continuava assim:

 “Medidas urgentes precisaram ser tomadas. De forma prática e rápida, ao mar os corpos foram levados. Empilhados no convés, iam mar afora em oito horas de navegação para oeste. O cortejo fúnebre marítimo era acompanhado por abutres, que insistentes e desafiadores faziam rasantes sobre o convés. Vez por outra a rapinagem tinha êxito.  Um olho gelatinoso, ou uma lasca de carne esverdeada era fisgada entre o bico das repugnantes aves...”.

“Naqueles dias, durante mais de duas semanas, foi um vai e vem de navios mortuários. Esmagados, amputados, queimados, anônimos, crentes e agnósticos, todos os restos mortais foram despejados no meio do mesmo oceano. Sem rezas ou recomendações. Quando muito, acompanhado de um nó na garganta, ou do suspiro preso de algum marujo, agora coveiro, mais emotivo...”

“Os vivos que ainda restavam na cidade demandavam por espaço para remoer as suas misérias. Aqueles foram tempos difíceis. Fome, frio, doenças e demais privações. Mas o pior era o medo. Quando haveria outro tremor de terra? Agora nem mesmo o rei conseguia dormir dentro de seu palácio. Ele temia que da noite para o dia o palacete se tornasse sua própria tumba. A fuga da cidade foi a decisão tomada por muitos. Talvez em França ou em Inglaterra haveria alguma segurança. Melhor ainda seria cruzar o oceano. Ir para bem longe dos tremores, maremotos e incêndios...”.

Sentado em sua biblioteca, o médico insone pensou como era triste a sina de migrantes e refugiados que deixam sua terra natal por medo. E que por ironia do destino, mesmo o rincão mais calmo e hospitaleiro tem seus dias de agruras. Esse último pensamento lhe trouxe de volta a realidade, e para a sua própria história. E seguindo seu antepassado, colega de causa hipocrática, também refletiu que haveria controvérsias em seu possível relato do que presenciara nas últimas semanas.

Hoje se sabe que a cidade não estava preparada. Mas ele não queria se ater a pequenos detalhes. Já se sentiria realizado se conseguisse transmitir em poucas linhas alguns dos sentimentos que lhe vieram à tona nos últimos dias.  Primeiro faltou a sabedoria, depois faltou o ar, e então a vida se esvaiu rapidamente. Como continuou faltando a sabedoria e também o ar, mais e mais mortes ocorreram.  Agora faltavam caixões, necrotério, cemitérios e coveiros. Também faltavam a verdade e o bom senso.

Diante de tal situação, grandes valas foram abertas. Covas coletivas e sepultamentos grupais foram a solução encontrada. Caminhões refrigerados que antes transportavam carne para açougue tornaram-se depósitos temporários para os corpos das vítimas.  Assim como veio, foi embora. Mas gostou tanto da cidade que voltou por lá outras vezes. 

Nas guerras dizem que a história é contada pelos vencedores. E nas grandes tragédias não bélicas, onde parece só haver perdedores, quem transmite a versão das vítimas? Os sobreviventes são vítimas, ou agora seriam os vencedores? De qualquer forma fornecem apenas a versão dos vivos.

Acabou o oxigênio, não tinha o que fazer. Agonizavam na sua frente. Somente sedação. Sofrimento deles, e dele também, médico que impotente os assistia em sua agonia. Sim, como na história do livreto, ele também sentiu uma profunda frustração de não poder fazer tudo que poderia ser feito. Não podia administrar oxigênio. Lembrança recorrente de fatos reais. Não estava surtando, eles não eram pedras.

 
 
 

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