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Conto - O enterrado vivo, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 11 de abr.
  • 6 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor, João Francisco Santos da Silva, com "O enterrado vivo".


O enterrado vivo


Corria ofegante, amassando o mato e trombando nos galhos que surgiam pela frente. Foi quando escorregou no barro mole e rolou encosta abaixo. Seu corpo só parou ao tocar a areia úmida da beira do rio. Escondidos na escuridão, dois vultos o aguardavam. Ajoelhou-se e, antes de abrir a boca, levou um chute na cara. Agosto é mês de pouca água e, naquele ponto, o rio não passava de um ribeirão, raso demais para levar o garimpeiro para longe. Os dois irmãos tiveram a mesma ideia. Com o leito do rio encolhido, o antigo mastro de aroeira, referência para o ancoradouro, ficou perdido no meio do areal, igual a uma árvore morta desgalhada. Por ser de aroeira boa, foi reposicionado próximo ao portinho de canoas. Mas, deixou como vestígio de sua última localização, um buraco fundo e estreito, precisando ser tapado.

Um dia ele seria o dono de fato da fazenda. O sogro deu a Belina como sinal de entrada. O jovem assinou a escritura e tornou-se o proprietário por direito. Contudo, cheio de promissórias para pagar e sem dinheiro para a reforma dos piquetes e para o plantio do pasto, a velha Santa Cecília lhe tratava como intruso. Durante a semana ele trabalhava de peão nas fazendas vizinhas e nos sábados e domingos labutava na propriedade recém comprada. Serviço demorado, não via muito resultado no que fazia. À noite, sozinho na tapera improvisada de casa, o aspirante a fazendeiro dormia o sono dos cansados. Porém, desde a primeira noite, algo estranho insistia em acontecer. Sempre no meio da madrugada, um barulho de panelas e talheres atirados no chão o despertava. Então, o rapaz se levantava, apenas para constatar que suas poucas panelas e talheres estavam sobre a mesa e a pia da cozinha, exatamente no mesmo lugar que ele havia deixado antes de se deitar. No início, quase não se incomodava, porém, depois de semanas escutando os mesmos barulhos inexplicáveis e mesmo não acreditando em assombrações, compreendeu porque a fazenda lhe foi vendida por quase nada.

Fazenda antiga, a Santa Cecília fazia parte da Gleba dos Meirinhos. Dizem que os irmãos Bernardino e Adalto Meirinho desbravaram aquelas paragens há mais de 200 anos. Tempos de violência, eles ocuparam um espaço que já possuía dono. Muito tempo antes deles chegarem, os caiapós viviam por lá. Naquela época remota, emboscadas e escaramuças entre brancos e indígenas faziam parte do cotidiano da fazenda. Depois de conquistada, a Gleba dos Meirinhos tornou-se chão de passagem, de pouso e descanso para aventureiros que seguiam sertão adentro, rumo aos arraiais de ouro. Boatos dizem que na Gleba também havia o metal precioso, mas, este não pertencia ao lugar, ele vinha trazido por garimpeiros que voltavam dos arrais de ouro.

Além de barulho de panelas sendo jogadas no chão, agora o jovem, quando deitava e fechava os olhos, também ouvia o som de mato sendo amassado e galhos se quebrando. Uma respiração ofegante parecia flutuar na escuridão e chegava quase a soprar em seus ouvidos. Sempre nesse momento, ele pulava da cama, não querendo ouvir o que a respiração tinha para lhe contar. Sua mulher vivia na cidade cuidando das crianças pequenas e, pela primeira vez, ele teve coragem de falar para ela o que há meses acontecia à noite na Santa Cecília. Mulher decidida, habituada a tratar com as coisas do outro lado, ela resolveu passar uma noite com o marido na fazenda. O casal combinou que não se levantariam da cama e ouviriam tudo o que a voz da respiração queria lhes contar.

No meio da noite iniciaram as batidas de panelas e os talheres jogados no chão. Depois o barulho de capim amassado, galhos quebrando e por fim, o som de uma respiração ofegante. À medida que a respiração foi se aproximando da cama, o casal sentiu um leve movimento de ar gelado atingir seus ouvidos. Em seguida, uma voz gutural sussurrou:

— Me cubram a cabeça!

O homem chegou sozinho, montado em uma mula e puxando outra com as tralhas. Vinha do norte, dos arraiais de ouro. Calado, pediu pouso para a noite, podia ser na estrebaria da fazenda. Mesmo sem nada falar, estava estampado que possuía ouro. A Santa Cecília era o último desafio na volta à civilização. Quem não morreu de febre, disenteria, afogado numa das muitas quedas d’água, ou flechado pelos caiapós, ainda precisaria passar pela fazenda dos Meirinhos. Os que voltavam vivos dos arraiais, vinham em grupo, a maioria a pé e estropiado. Os que chegavam solitários, com certeza, providenciaram sua solidão pelo caminho. E para conseguir mulas só com os Caiapós. Os indígenas sempre tinham mulas roubadas para vender, desde que o comprador estivesse disposto a pagar o valor em ouro.

O garimpeiro comeu um prato de charque com feijão e farinha de mandioca e tomou uns goles da cachaça. Depois vasculhou o bolso e tirou um saquinho com uma areia dourada em quantidade suficiente apenas para sujar o dedo dono da fazenda.

— Está ruim de ouro lá por cima? Cada vez vejo menos desse pozinho por aqui! Não paga a comida, mas o amigo está cansado e nós somos cristãos. Seja bem-vindo a Santa Cecília. Pode deitar a carcaça lá na estrebaria. Está calor, mas o bom é que não tem

mosquito. Leve a garrafa com o resto da cachaça. Ajuda a dormir. Pode pegar, não custa nada — disse Adalto Meirinho.

— Então muito obrigado!

O forasteiro saiu com a certeza de seu destino já estar selado. A única escolha que teve, foi fingir acreditar na hospitalidade dos irmãos. Tinha esperança de conseguir fugir a pé no meio da noite. Noite escura, sem lua. Pegou apenas a bolsa de pano com seu tesouro em pó e o inseparável chapéu de couro cru. Correu, primeiro esgueirando-se por trás do galpão da estrebaria e depois seguiu em direção ao barulho das águas. Pelo meio do mato, corria cada vez mais rápido, levando no peito os galhos que encontrava pela frente. Já ofegante pelo cansaço, a corrida parou bruscamente quando escorregou em uma pequena ribanceira e foi rolando até parar na areia junto ao riacho.

— É perigoso passear a essa hora da noite! — disse Bernardino Meirinho.

Ao olhar para cima, identificou os dois irmãos, donos da fazenda. Em pé, cada um com uma garrucha apontada para ele. Ajoelhou-se, e ao tentar levantar-se foi atingido por um chute no rosto. Meio atordoado com a pancada, escutou os irmãos discutindo sobre o seu destino:

— O rio está muito raso, em vez de jogar o corpo nas águas, vamos tapar o buraco do poste de aroeira.

Os irmãos carregaram o garimpeiro nas costas até o local do buraco. Para não fazer barulho e não gastar munição, ou por mera malvadeza, enterraram o homem em pé, ainda vivo. Antes porém, retiraram o chapéu da cabeça calva do garimpeiro e o usaram como sacola para colocar o saco de ouro. E depois endereçaram uma última reza ao enterrado:

— Que o diabo o carregue, seu maldito sovina! Com quase dois quilos de ouro queria gastar uma sujeirinha de pó. Para onde você vai não precisará disso! Vamos cuidar dele para você — disse Bernardino, mostrando o chapéu com o saco de ouro dentro.

Intrigados com o que ouviram da voz sobrenatural, o casal procurou na cidade o antigo caseiro da fazenda. O velho capataz, não se surpreendeu com a história contada pelo casal e até parecia que já os esperava.

— O chapéu é o batismo de fogo para quem quer viver na Santa Cecília. Vocês não são os primeiros a escutar esse pedido. Na fazenda há um pequeno cemitério antigo e abandonado. Comprem um chapéu novo, de boa qualidade e levem lá no cruzeiro do cemitério. Façam isso e a assombração do garimpeiro não lhes incomodará mais. Ah! Já ia me esquecendo, coloquem dentro do chapéu um saco com dois quilos de areia.

O cemitério em ruínas e coberto por mato alto, ficava numa das divisas da fazenda, distante da sede. Em uma parte com menos mato, que denunciava ser mais frequentada, havia uma cruz de ferro enferrujada de mais ou menos dois metros de altura. O casal teve a certeza de estar no lugar certo quando viu vários chapéus, estropiados pelo tempo e com sacos de areia sobre seus restos.

 
 
 

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