Conto - O Boca Fechada, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- 4 de jul.
- 3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "O Boca Fechada"
O Boca Fechada
Parados na esquina, uns falavam alto, outros sussurravam, enquanto poucos se mantinham calados. Todos, em comum acordo, olhavam para baixo, atraídos pela estranha criatura amanhecida na sarjeta. O pequeno grupo mantinha uma distância segura, o suficiente para se indignar com a cena trágica, sem precisar chegar perto da vítima asquerosa.
— Quem teria feito tamanha crueldade com ele? Isso não pode ficar assim!
— Hoje em dia, a gente ouve tanta coisa. Ele deve ter sido vítima de um ritual de magia negra?
“Por que me olham e não fazem nada? Vão me deixar agonizando até morrer? Bando de insensíveis, se eu abrir a minha boca, a vizinhança nunca mais será a mesma”.
Com cada vez mais dificuldade para respirar e a boca latejando, sentia o fim se aproximar. Desejou rememorar sua breve existência. Nasceu no bairro ao lado, tão perto e, ao mesmo tempo, tão distante da realidade do grupo que o cercava. Antigamente, no Prado Velho, onde nasceu, a baixada do bairro era um brejo só. Bons tempos aqueles.... Um espasmo o fez interromper a boa recordação. Percebeu que já não tinha tempo para completar a retrospectiva de sua vida.
Decidiu saltar para o passado recente: mais precisamente, ontem à tarde. Depois de adulto, saiu da baixada e não subiu na vida. Foram tantas as dificuldades: abandonou a família, perdeu os amigos e acabou como morador de rua. Ou melhor, de praça. Foi morar na Praça do Japão. Cidade grande é solitária, cheia de gente estranha. Em meio ao barulho de motores, buzinas e freadas dos carros, desejava ouvir vozes familiares. Sentia saudades dos sons que sua turma fazia nos finais de tarde, início de noite, lá na baixada.
Mas, não podia reclamar. Arrumou um cantinho ao lado do chafariz e, pelo menos até ontem, não havia sido difícil passar despercebido, melhor dizendo, ignorado pelos transeuntes que cruzavam a praça diariamente. Com a pele meio esverdeada e as manchas no corpo, ninguém se aproximava dele por vontade própria. Deviam pensar que portava alguma doença contagiosa. O fato é que para alguém desagradável como ele, era melhor ser invisível do que indesejado. Ao menos lhe deixavam em paz.
“Remoendo os últimos acontecimentos, ainda não me caiu a ficha de por que ontem foi diferente. E o dia estava tão agradável, nem frio, nem quente. Uma garoa fina e fresca caía, molhando minhas costas. Clima perfeito. Mas por que aquelas duas mulheres estavam me procurando e, para minha desgraça, me encontraram?”
— Precisa ser um grande, senão fica difícil para fazer — disse a mulher de cara enrugada.
— A gente pode dobrá-la. Mas tenho pena, ela é tão bonita e a única que tenho.
— Se você tem dúvidas, é melhor nem fazer. Porque depois a coisa sai malfeita e é pior!
— Já decidi, está decidido!
— Olha aquele ali escondido — apontou a velha enrugada na direção dele.
“Nunca tinha sido carregado numa sacola. Me mixei todo. Por que me enfiaram aquilo na boca? Eu não merecia tanto sofrimento. A agulha indo e vindo, me ferindo. Depois fui largado aqui na sarjeta, de madrugada e sem testemunhas. Não consegui sair do lugar. Não tinha força para saltar fora daqui. Acho que desmaiei por algum tempo. Acordei com dor, e agora não consigo respirar. E eles permanecem só me olhando, enquanto agonizo”.
— Pronto, soltei a linha — olha só o que temos aqui — disse a mulher, mais corajosa, ou curiosa, do que os demais. Com uma tesoura, ela descosturou a boca do sapo e de lá retirou a foto de um jovem vestido com uniforme militar.
— Conheço essa cara de algum lugar — disse o açougueiro do bairro. — Pode ser algum freguês!
— Sim. Eu o conheço. Ele é o noivo da Renilda, filha da dona Dinah, a costureira, mas faz tempo que não aparece para noivar — disse a bisbilhoteira, vizinha de muro da costureira.
“Que filhas da puta!”
O sapo, com a boca rasgada, soltou um último e fraco coaxar.





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