Conto - Nem como letra de música, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- 7 de mar.
- 3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geal, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com Nem como letra de música.
Nem como letra de música.
— Não se preocupe! Eu pago todas as despesas para reparar o estrago que fiz — disse o homem com chapéu e sorriso largo.
Até putaria tem limites. Pensou o dono do motel, possesso de raiva, mas preferiu calar-se para não piorar a situação. Recebeu um bolo de notas velhas, amassadas, fedendo a fumo de rolo e as enfiou todas no bolso. Bem lá no fundo do coração, desejou ao peão abestalhado e a sua nova mulher, que os dois nunca mais botassem os pés em seu estabelecimento.
Essa parte não estava na música. Sim, o caso do motel é apenas uma letra de música brega dos anos 70. Quantos delitos foram cometidos nessas historinhas ‘meio’ fictícias e nem sempre com final feliz. Mulheres fatais responsáveis por crimes passionais e pela desgraça de homens de bem. Varões ‘corajosos’, perdidamente apaixonados e dispostos a fazer qualquer coisa por amor. Pelo menos nas músicas, alguns se arrependiam e achavam ser uma grande coisa aceitar a justiça dos homens.
Quebrar a parede do quarto do motel para pegar a amada transando com outro, isso até nos anos setenta já era de péssimo gosto e só servia para letras de músicas de categoria C ou D. Interessante como o fato de estar apaixonado resolvia tudo. Convenceu a mulher a ir com ele e deu uma chega para lá no amante da moça. Aliás, o outro se livrou de problema pior, podia ter morrido pelado na cama e sem saber o motivo.
Provavelmente a mulher da música, pintada de loira, se encaixaria no perfil de destruidora de lares. Capaz de despertar os mais perigosos instintos. E se num desses rompantes o apaixonado a matasse por amor, ainda poderiam considerá-la culpada por desgraçar a vida do pobre homem. O coitado abandonou a família, matou uma mulher, mas estava disposto a pagar pelo seu crime de paixão (isso apenas nas letras de música), porque na vida real ele alegaria legítima defesa da honra, privação de consciência e outras baboseiras para sair livre e impune.
As letras de canções representam, em alguma medida, o pensamento e os costumes da sociedade contemporânea a elas. Se o machismo e a violência de gênero fossem apenas temas de música, a censura do que é considerado politicamente incorreto já teria resolvido essa trágica questão há muitos anos. Contudo, a julgar pela atual ocorrência de elevado e vergonhoso número de feminicídios, ou a sociedade não aprendeu nada, ou provavelmente melhorou, bem pouca coisa por sinal, e não consegue mais camuflar sua hipocrisia, deixando a própria perversidade escancarada.
A caída das máscaras, admitindo sua existência, ajuda a reconhecer a violência de gênero. Porém, a impunidade e a recorrência cotidiana desses crimes parecem banaliza-los. Talvez ainda falte indignação a sociedade, pessoas indignadas querem e têm pressa para solucionar o que lhes indigna. Quem sabe, quando houver tal sensibilização social, os próximos passos sejam menos lentos para se alcançar uma melhor compreensão das raízes do comportamento machista e para efetivar ações que levem a prevenção, ou ao menos, a redução de feminicídios e de outros crimes atribuídos a gênero.





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