top of page

Conto - Manoel Burro Velho e Seu João Preguiça, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 16 de mai.
  • 4 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com Manoel Burro Velho e seu João Preguiça.


Manoel Burro Velho e Seu João Preguiça


Na escuridão noturna, de algo menos escuro, saía o "inhóóó, inhóóó, inhóóó". O algo menos escuro, podia ser uma caixa, de tamanho suficiente para caber nela uma geladeira deitada. O “inhóóó´, inhóóó, inhóóó´” vibrava rouco e subia de intensidade em frente a antiga farmácia. Mas, caixas não zurram em frente a farmácias. O algo menos escuro podia ser qualquer coisa ou coisa nenhuma. Alguns juram que o algo menos escuro, era um burro fantasma, ou melhor, um fantasma na forma de um burro. Porque lembrou-se dessa história, justo agora? Ela deve ter chegado junto com o seu João Preguiça. Depois de tantos anos, o homem ainda conseguia amedronta-la e desta vez vinha com uma novidade, um estranho e insistente pedido.

Manoel Burro Velho e João Preguiça se tornaram figuras ilustres e lembradas, mesmo depois de finados. Homens com existências distintas, mas com legados parecidos. Em vida, os dois, cada a um à sua maneira, sofreram humilhações e certo desprezo. Eles viveram e morreram num tempo, literalmente, de trevas. Época de ruas pouco iluminadas e repletas de assombrações vagando pela cidade.

Manuel Burro Velho, dono de farmácia, ganhou a fama de passar remédio errado. Na cidade ele tornou-se a última opção para quem precisasse de um comprimido para dor de cabeça ou de umas gotinhas para a febre do filho. Melhor andar um pouco mais e se tratar na bodega do Heitor Liberato, esse sim, homem entendido na arte das drogas curativas. Na verdade, ninguém queria se arriscar a sair com uma receita fatal, como dizem, as más línguas, aquela que o Manoel deu para a própria mulher. Queixando-se de dor na barriga, o farmacêutico equivocado, pensando tratar-se de gases, lhe passou uma limonada purgativa. Com colite infecciosa, a mulher morreu dois dias depois, desidratada e em meio a intermináveis evacuações sanguinolentas. Suspeitam que numa noite sem lua, ele a enterrou nos fundos do quintal da farmácia. Segundo os mais maldosos, no terreno espaçoso, ele ainda poderia enterrar ali o restante da família.

Até que um dia chegou a vez do Manoel. E desde a sua morte, muita gente jura ter visto, deitado no escuro, em frente a antiga farmácia, o corpo de um animal sobrenatural. Os entendidos em aparições afirmam ser um burro. A assombração só apareceria para as pessoas que falavam mal dele em vida. Quem mandou chamar o Manoel de burro velho? Ele não precisava de rezas ou orações. Em vez de pais-nossos, ele queria apenas uma rapadura e um pedido de desculpas. Mesmo desencarnados, certos

espíritos ainda seguem com alguns comportamentos de quando estavam vivos. Um engraçadinho, metido a piadista, lembrou que o Manoel era diabético e não podia comer açúcar. Se o animal pedia rapadura, só podia ser ele mesmo, o Burro Velho do fantasma do Manoel!

O seu João Preguiça, coitado, pobre de dar dó. Adorava contar histórias de fantasmas. Vez ou outra, ia à praia, na hora da rede chegar e catava um peixinho, daqueles pequenos, sem valor e desprezados pelos pescadores. Levava para casa apenas um peixe, mais que isso daria muito trabalho para limpá-lo. Onde morava não tinha água encanada. Todo final de tarde, passava na casa da dona Bia com uma moringa de barro para buscar água fresca. João Preguiça sempre vinha com uma nova história para assustar a criança. Contava o caso e depois ia embora deixando a menina, a caçula de dona Bia, morrendo de medo.

A mãe do seu João Preguiça, a dona Maria Gorda costurava. Mulher de bom coração, dava retalhos para a filha de dona Bia fazer roupas para sua boneca. Brinquedo que o irmão lhe trouxe de presente quando voltou da guerra. O João Preguiça, imagine um homem bom. Depois que a mãe morreu, ficou sozinho. No final da vida, bastante doente, com feridas fedidas espalhadas pelo corpo, não saía mais de casa. Deixava aberta apenas uma janelinha, por onde todos os dias recebia um prato de comida, trazido pela filha de dona Bia, agora uma moça feita.

Depois de casada e morando em outra cidade, a filha de dona Bia tinha um sonho recorrente. Nele, o seu João Preguiça vinha lhe pedir um ramo de copo de leite. Depois de muitas noites mal dormidas e sem saber o que fazer, o marido lhe disse para levar um buquê de copos de leite no cemitério e deixa-lo na cruz das almas. Para espíritos desencarnados, não há distância, e em qualquer cemitério ele receberia seu pedido. E assim ela fez. Depois disso, o seu João Preguiça nunca mais voltou a aparecer.

Difícil saber porque o dono da farmácia enterraria a esposa no quintal de casa? É possível que as pessoas nem soubessem do que a mulher morreu. Quem sabe, um ou outro cliente insatisfeito o difamou? Talvez nessa história toda, a língua mais inofensiva tenha sido a que inventou a história do burro fantasma. Com o João Preguiça, as coisas foram diferentes. Ele pertencia a categoria das pessoas invisíveis. Pior que marginalizadas, são ignoradas por quase todo mundo. E se não são vistas quando vivas, imagine se seriam vistas depois de mortas? O seu João Preguiça não assombraria ninguém. Aqui, a solidariedade sincera e a simpatia entre pessoas simples criaram laços afetivos fortes e, mais que duradouros, transcendentais.

 
 
 

1 comentário

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Convidado:
16 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️

Curtir
bottom of page