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Conto - Ferrada de Arraia, por Paulo Portuga

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 1 hora
  • 2 min de leitura

Quarta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o professor, poeta, músico, escritor e compositor de Dourados (MS), Paulo Portuga, com "Ferrada de Arraia".


FERRADA DE ARRAIA


Conta um amigo que foi ferroado por uma arraia. No pé, foi ferido pelo ferrão pontiagudo e serrilhado que lacerou a sua carne, deixando um buraco. A dor foi intensa e imediata, mas o sujeito conseguiu sair de dentro do rio para o barranco de areia. Disse-me que, mesmo assim, recolheu os peixes fisgados e os colocou dentro de um saco de fibras de nylon.

O rio da pescaria é o Piripucu e fica longe da cidade mais próxima, Bela Vista, cerca de uns 35 quilômetros. O pescador solitário teria que enfrentar a estrada até o hospital da cidade, mas antes precisaria subir o barranco alto e percorrer uma trilha de 800 metros até o rancho onde estava seu carro.

O pé sangrava à medida que ele caminhava pela areia, que cobria a ferida, grudando no sangue que escorria abundantemente. Sentia dores intensas e pulsantes devido à ação do veneno. Ele não me contou se urinou nas calças. Só posso imaginar o sofrimento do pescador. Dizem que essa dor está entre as maiores causadas por uma ferroada.

O pirangueiro fez um tremendo esforço físico, depois de um dia longo e quente na beira do rio, para vencer a trilha e chegar até o barraco. Contou que a água morna e limpa do rio o convidou para um banho; só não esperava a surpresa da arraia cor de areia, camuflada no fundo.

Durante a caminhada, refletiu: por que ainda carregava um saco cheio de peixes que pesava uma paca? Jogou todo o pescado no mato e prosseguiu manquitolando. Chegou esbaforido, lavou a lesão com a água fria da torneira do tanque, subiu no carro e partiu para o hospital.

Do pesqueiro até a cidade leva mais ou menos uma hora. É quando a dor atinge seu pico mais alto. Como estava sozinho, precisou de muita coragem e sorte, pois a reação ao veneno, somada aos fragmentos e espinhos da cauda da arraia que ficam escondidos no ferimento, pode causar desmaios. O carro poderia sair da pista e provocar um acidente ainda maior.

Muitas pessoas com esse tipo de ferida experienciam desmaios, fraqueza, enjoo, ansiedade, vômitos, diarreia, sudorese, espasmos generalizados e dificuldade respiratória. Acho que nosso personagem teve um pouco de tudo isso, só não se lembra direito.

O pescador é um gabiru legítimo. Vai para um lugar ermo sem medicamentos de primeiros socorros, o que prejudicou muito o tratamento do ferimento. No hospital, recebeu os primeiros procedimentos, mas a ferida infeccionou por bactérias, exigindo antibióticos específicos.

Perna para cima, pomadas, remédios, tratamento controlado e dias intermináveis. O tratamento durou seis meses para fechar a ferida no pé do pobre coitado. Do rio, ficou distante por um bom tempo, ressabiado.

Mas, como todo pescador, não perdeu o gosto pela coisa. Comprou botas de cano longo para poder entrar novamente no rio com confiança. Para os companheiros, mais uma história de pescador — uma fatalidade. Para o nosso pescador professor, foi como ganhar na megasena ao contrário.

Fica aqui um aviso: todo pescador deve ter muito cuidado onde pisa, senão o molho do peixe fica mais caro!


Paulo Portuga, 11/05/2026.

 
 
 

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