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Conto - Envelhecer três em um: fui, sou, ou quem sabe, serei, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 8 horas
  • 3 min de leitura
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Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com " Envelhecer três em um: fui, sou, ou quem sabe, serei".


Envelhecer três em um: fui, sou, ou quem sabe, serei.


Eu estava tomando café da manhã num hotel em Corumbá e por uns instantes detive minha atenção em um homem sentado numa mesa próxima. Confesso que sou péssimo para estimar a idade de pessoas. Costumo estimá-la por comparação. Nesse caso, o vizinho de mesa me parecia mais jovem, e ainda teria um bocado de anos para chegar até onde cheguei. Que o tempo voa, quase todo mundo, ao menos os mais vividos, concordam comigo. A pergunta é: quando percebemos isso? Ali sentado, eu vislumbrei, quase ao meu lado, algo que tenho certeza, o vizinho de mesa ainda não percebera e que já seguia em processo avançado e irreversível.

Apenas para deixar claro quanto ao meu grau de consciência naquele momento, como já mencionei, isso ocorreu no café, pouco depois dás 6 da manhã, eu estava sóbrio e bem acordado. Não vou fazer suspense. Na véspera do ocorrido li uma matéria e ela deve ter sido a inspiração para minha visão ampliada. Explico melhor: vi o recém ex jovem e o novato homem maduro sentados juntos com meu vizinho de mesa. Imagino que, se o tivesse conhecido na sua infância, haveria mais uma quarta pessoa à mesa. E o homem ali tomando seu café, comendo pão com manteiga, despreocupado e ignorando a onda já formada e se preparando para em breve lhe chegar como um tsunami. Pensei comigo mesmo: se só houvesse uma pessoa naquela mesa, será qual das duas, das três ou das quatro ele acha que ainda é?

Bem, voltando a matéria lida ontem, estudos realizados na universidade de Stanford, nos Estados Unidos, descobriram que envelhecemos em saltos. Acho que não é exatamente o processo de envelhecer, mas a percepção dele. Mais ou menos assim: dormimos com 30 anos e, em um não tão belo dia, acordamos com 45. Parece que além de nossa percepção no espelho, das dores no corpo, cansaço e etc... há pontos de corte nos quais as coisas ficam mais explicitas. Em outro estudo, mencionado na mesma matéria, foram identificados três saltos significativos nas concentrações de proteínas ligadas ao envelhecimento, os quais ocorreriam por volta dos 40, 70 e 80 anos. Isso explica muita coisa, como por exemplo, porque as ressacas depois dos 40 se tornam cada vez mais antipáticas e insistentes do que aquelas que tínhamos aos 20 anos. Isso se deve a mudanças fisiológicas que incluem menor retenção de água, diminuição da eficiência do fígado, entre outras alterações na composição corporal próprias do processo de envelhecimento.

Sem entrar em mais detalhes fisiopatológicos desinteressantes, talvez os estudos mencionados apenas expliquem, em linguagem científica, que as coisas só tendem a piorar. Se a pessoa tiver sorte seguirá em frente com as suas dores e mazelas, já velhas conhecidas e que certamente não serão suas melhores amigas. Contudo, se souber conviver com elas, aquela pressão alta pode se comportar como um gatinho e não virar a fera de um acidente vascular cerebral, também conhecido como derrame. O copo vazio dessa história, e isso é a estatística que decreta, em algum dia um dos gatinhos, ou mais de um deles, vai virar uma fera e nos devorará. O copo cheio seria, caso não tropece em algum daqueles saltos proteicos, você pertencer a uma seleta categoria, ainda pouca compreendida, que se mantém firme até todas as feras sumirem de sua vida. Lamento informar, mas isso seria pura ilusão de perspectiva, pois ao invés delas lhe deixarem em paz, foi você quem sumiu da presença delas. Você saiu do jogo e agora deve estar em um lugar incerto e desconhecido.

Lembram daquela possível quarta pessoa à mesa de café com meu vizinho? Especificamente para ela, tenho a teoria de que a visão ampliada não sirva para pais e avós. Pelo contrário, para eles a visão costuma ser distorcida e, talvez, vejam apenas uma criança sentada à mesa tomando leite com achocolatado.

 
 
 

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