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Conto - Entre águas-vivas e raposas, por João Francisco Santos da Silva

Foto do escritor: Alex Fraga
Alex Fraga
há 8 horas
2 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "Entre águas-vivas e raposas",


Entre águas-vivas e raposas


Precisou de algum tempo para identificar o que lhe passou pela cabeça depois da 12ª hora. Difícil de explicar. Sensações se perdem quando explicadas. Ele nunca mergulhou profundamente. Talvez mergulhadores experimentassem algo parecido com o que sentiu nas últimas seis horas de corrida. Um tipo de desconexão seletiva. A mente, ao mesmo tempo que se esvazia, mantém-se concentrada. A acuidade auditiva e a visão periférica são quase eliminadas. As pernas seguem no automático. Foram avisadas, e muito bem, de que precisariam correr 81 quilômetros em uma trilha na montanha.

A corrida começou de dia e continuou pela noite. Com a escuridão, a paisagem montanhosa transformou-se em um ambiente indefinido. No mar ou naquele espaço indeterminado, a introspecção devia ser quase a mesma. A diferença era uma dor distante nos pés calejados, reforçada a cada pisada.

Uma lanterna presa à testa iluminava apenas o suficiente para revelar a linha das próximas passadas. De repente, ele foi puxado de seu mergulho interior. O feixe de luz flertou com um par de olhos amarelo-esverdeados. Encontro de poucos segundos. Logo, só havia o solo iluminado do caminho à sua frente.

Na hora, não pensou em nada. Depois, supôs que fosse uma pequena raposa, das muitas que vivem naquela montanha. Pode ter sentido medo. Talvez ele tenha se lembrado de quando nadava em mar aberto. Nas travessias maiores, cruzava com peixes e águas-vivas. Lindas, assim como as raposas, elas não fazem por mal. Mas podem ser perigosas. Um leve contato e a pele é queimada.

De volta à terra. Pés no chão, cheios de calos. Não se queimou com águas-vivas, que ainda não foram encontradas em lugares montanhosos. Também não foi mordido pela raposa. Ou seria um lobo? Depois de 18 horas, completou a corrida. Superou alguns de seus limites. Recebeu a medalha. Alguns dias de dores e já deve ter outro desafio planejado. Mais prudente que não seja nadar num mar com tubarões ou correr numa montanha com ursos.

 
 
 

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