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Conto - Devaneios en la Recoleta, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 17 de mai. de 2025
  • 5 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com

Devaneios en la Recoleta


Devaneios en la Recoleta


A Plaza de Mayo fervilhava de pessoas comemorando o dia cívico da antiga revolução. Misturavam-se na celebração turistas e portenhos num clima agradável e festivo. Até parecia que todos ali reunidos haviam preparado a comemoração especialmente para ela. Turista brasileira, aniversariante do dia e pela primeira vez em Buenos Aires. Ela sentiu vontade de ficar o resto do dia festejando na praça, mas tinha um outro compromisso turístico. Amigas brasileiras lhe recomendaram três ou quatro coisas obrigatórias de se fazer na capital argentina. Segundo elas, quem vai a Buenos Aires tem que visitar o túmulo de Gardel.

Mesmo relutante, pois não gostava de cemitérios, ela foi fiel as recomendações das amigas. Saiu da Plaza de Mayo e embarcou no primeiro táxi que encontrou. Pediu para ir ao cemitério.

— A qué cementerio quieres ir? Chacarita o Recoleta? Perguntou o taxista em espanhol.

— Recoleta! A moça apenas conseguiu repetir a última e única palavra que compreendeu.

Durante o trajeto, a turista ainda indecisa pensava se valeria a pena o investimento de tempo e dinheiro num passeio fúnebre. Ela não tinha noção de preços, pensava em reais e pagava em dólares. Talvez com o dinheiro do táxi pudesse comprar uma garrafa de vinho decente. Gostava de dançar tango e conhecia Gardel somente de nome. Será que isso bastava para ir visita-lo no cemitério? Um homem que morreu há tanto tempo. No meio do caminho lhe surgiu outra dúvida, quem estava enterrado na Recoleta: Gardel ou Evita? Talvez os dois, nunca foi muito ligada em história e biografias. Quando pensava em Evita só lhe vinha a imagem da Madonna cantando “Don’t cry for me Argentina”. Estudar para fazer turismo era algo que lhe aborrecia.

Pensou que poderia estar em sua casa, ou na de sua família. Então, por que estava indo a um cemitério na Argentina justo no dia de seu aniversário de 46 anos? O fato é que não queria ficar sozinha em casa. Não podia estar com o filho e não desejava passar essa data com os pais e os irmãos. Por isso escolheu fazer o aniversário distante de casa e da família. Depois de três relacionamentos intensos, ela se conhecia bem o suficiente para saber que já estava disponível para o próximo pretendente. Quem sabe um portenho. As brigas e discussões da relação poderiam ser em castelhano. Nunca gostou de inglês e após a última separação iniciou um curso de espanhol. Entender um portenho falando, como o taxista, deve ser difícil até para um falante nativo de espanhol que não seja argentino.

Vendo por essa perspectiva, o passeio ao cemitério poderia ser útil para aprimorar o seu aprendizado de espanhol. Praticaria leitura com as curtas inscrições dos túmulos.

Com o firme propósito de estudo, ela foi seguindo cemitério adentro entretida com a leitura de datas, nomes e dedicatórias grafadas em espanhol nas lápides. Havia muito tempo que estava assim distraída, quando subitamente deparou-se com a mulher que iria modificar o seu ânimo. Sobre uma pequena plataforma, ao lado de grande mausoléu em estilo neogótico, repousava a estátua de uma mulher jovem e esguia, com longos cabelos loiros e lisos, de olhos azuis, acompanhada por um cachorro de porte médio e pelo escuro. A turista só pode identificar a cor dos cabelos e dos olhos da estátua marmórea, quando olhou para dentro do mausoléu e viu a pintura colorida de uma linda jovem.

Atraída pela estátua, passou a mirá-la e com admiração identificou que ela trajava um vestido parecido ao de noiva. E olhando mais detidamente, viu esculpida em seu dedo anular uma aliança de noivado. Desse momento em diante a turista permaneceu hipnotizada pela jovem noiva. Além de simpatia, ela também sentia empatia pela sua nova conhecida portenha. Como se a conhecesse desde muito tempo, e compartilhassem os mesmos sonhos e planos de vida. Poderiam ter sido as melhores amigas uma da outra. Pena que moravam tão distantes.

Mesmo desconhecendo a história da mulher da estátua, em sua cabeça, a turista já a conhecia intimamente. Jovem apaixonada, viveu uma linda história de amor. O noivo era um cavalheiro desses que caminha pelo lado de fora da calçada para proteger a amada. A noiva da Recoleta estudou em um internado para moças na Finlândia e conheceu seu pretendente nas férias de verão em Mar del Plata. Moço alto, forte, jogador de polo. Foi amor à primeira vista. Pobre noiva apaixonada, voltando de Miami, onde fora fazer as últimas compras para o seu enxoval, o avião caiu. Não houve sobreviventes da terrível tragédia. Seu noivo, profundamente abalado, erigiu como tributo a amada um mausoléu com a estátua da jovem acompanhada de seu cachorro de estimação que morreu no mesmo dia em que sua tutora.

O tempo passou voando e devido ao adiantado da hora, com os portões prestes a serem fechados, a turista foi gentilmente convidada a retirar-se do cemitério. Saiu de lá com a sensação de ter iniciado uma grande amizade. Havia sentido uma total identificação com a noiva da Recoleta. Como sua amiga portenha, ela também sempre sonhou em casar-se vestida de noiva. Na verdade, em seu primeiro casamento ela trajou branco. Mas, por vontade própria, não quis um vestido de noiva tradicional. Após algum tempo, uns dez anos, tudo acabou. Seu filho foi a melhor coisa que resultou desse primeiro casamento.

Depois de adolescente, o filho foi morar com o pai em outro país. No seu segundo relacionamento, morou junto, fizeram e depois desfizeram o contrato. Com o segundo marido ela sonhava em casar-se numa praia. Ela e o noivo vestiriam roupas de linho branco bem confortáveis. Trocariam alianças, votos de amor e fidelidade, e a praia estaria iluminada por tochas. De testemunhas somente a lua e o barulho do mar. Não era para ser e não foi. O terceiro, ótimo companheiro, mas não existia química entre eles. Esse último tinha um pouco dos dois anteriores e ela continuava sendo a mesma. Tinha tudo para não dar certo e não deu. Lembrava da jovem da estátua e cada vez mais sentia que as duas eram muito parecidas e comungavam dos mesmos sonhos.

Da viajem a Buenos Aires não restou nem uma vaga lembrança do túmulo de Evita e muito menos de Gardel. Além do pouco interesse em procurá-los, Gardel não estava por lá. Ela nem percebeu o equívoco de cemitério. E se o percebesse até teria agradecido, pois permitiu o encontro com a nova amiga. Dançou muito tango, bebeu generosas taças de vinho, flertou e namorou com um portenho. Os dois sabiam que seria só por uma ou duas noites. Voltou para o Brasil com a certeza que tinha conhecido uma pessoa muito especial. Não o argentino que dançava tango, e sim, a noiva da Recoleta. Há equívocos que ocorrem para o bem. Se tivesse ido a Chacarita, cemitério onde está o túmulo de Gardel, não teria encontrado a jovem portenha com seu cachorro de estimação. Em sua cabeça sonhadora decidiu que passaria seu próximo aniversário com a amiga na Recoleta. Quem sabe, se as condições financeiras permitissem, um dia iria até a Finlândia para conhecer o colégio interno onde a amiga estudou na adolescência. Quem sabe conheceria um finlandês interessante. Quem sabe...

Melhor mesmo é não saber de quase nada. Que importa saber que a noiva da Recoleta morreu numa avalanche na Áustria? Provavelmente, a turista sonhadora nunca irá à Finlândia, assim como também não iria à Áustria. Que importa saber que quando a jovem morreu ela já era uma mulher casada há mais de três anos? Que o seu cachorro só morreu de velho e muito tempo depois dela? Que foram os pais da jovem que construíram o mausoléu e que o viúvo era totalmente contra aquele monumento? Os fatos verdadeiros têm menos graça que os imaginados. Assim como é difícil reconhecer que o futuro destrói o passado. O como poderia ter sido se... É sempre melhor do que aquilo que realmente acabou acontecendo.

 
 
 

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