Conto - Convulsão Social, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- 19 de jul. de 2025
- 2 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "Convulsão Social".
Convulsão social
Caiu de barriga para cima, pedalando as patas e com tremores no corpo. Os movimentos do pescoço faziam a cabeça bater repetidas vezes no chão. Parecia uma barata envenenada agonizando, quase a morrer. Além da respiração um pouco mais ruidosa, ouvia-se o barulho do toque-toque da cabeça golpeando o piso da sala. Diante da cena, uma poltrona ocupada. Ele permaneceu sentado, sem mexer nenhum músculo. As mãos, de pele fina, ressecada e com manchas, se mantinham soltas por fora dos braços da poltrona. Um livro aberto, há muito não lido, largado sobre a barriga.
O barulho de toque-toque cessou junto com os tremores. Agora, o único movimento, quase imperceptível, era o da baba espessa que descia lentamente pelo canto da boca do cachorro. Depois de um tempo indeterminado, o livro escorregou do colo e caiu no chão. A mão esquerda apresentou leve tremor, seguido por um único e último estertor ruidoso. O corpo dobrou-se para frente, sem tombar da poltrona.
As moscas não tardaram em chegar. Infestaram a sala e recobriram os corpos. O cheiro cresceu a ponto de escapar para o corredor do andar. Atraídos pelo fedor, semanas depois, chegaram os humanos. No condomínio de apartamentos, a curiosidade sobre o ocorrido se manteve acessa por poucos dias. Conversavam sobre parte da tragédia.
— Coitado do cachorro! Deve ter morrido de sede ou de fome?
Algum vizinho, mais indignado, pensou e talvez disse:
— Idosos morando sozinhos não deviam ter animais de estimação. Que crueldade deixar o cachorro morrer daquela forma!
— Pobrezinho do Frajola do 86 — comentou outro morador emotivo.
O cachorro possuía uma plaquinha, com seu nome, presa a coleira. O tutor, o velho do 86, possuía um número de CPF. Desconhecido pelos vizinhos, morreu solitário, mera consequência de como vivia. Sem nomes, sem olho no olho, sem palavras trocadas, sem cordialidade. Final nada surpreendente para quem vive numa sociedade convulsionada, acalentada por likes e financiada por CPFs.
Recado do autor:
Estou divulgando o lançamento de meu livro, uma coletânea composta por trinta contos curtos com temática existencialista. As histórias percorrem as várias fases do ciclo vital, partindo do período pré-natal, nascimento, infância, idade adulta, terminalidade da vida, morte e chegando até um pouco mais além.
Livro: O polonês melancólico. Autor: João Francisco Santos da Silva. Editora: Samsara. Encontra-se em período de pré-venda e maiores informações sobre o livro podem ser vistas em: https://contosdesamsara.com.br/loja/ols/products/opolonesmelancolico





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