Conto - Conspiração do silêncio: um boicote à boa morte, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- 31 de mai. de 2025
- 4 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com Conspiração do silêncio: um boicote à boa morte.
Conspiração do silêncio: um boicote à boa morte
Olhando para a fralda suja em suas mãos, a mulher bem poderia estar imaginando o futuro, como quem o lê na borra de café. Embora a cor acastanhada e o cheiro fétido em nada lembrassem o pó daquela bebida. Redundância dolorosa rever uma sorte já lançada e conhecida. Melhor calar-se. Em outra situação seria engraçado comparar sujeira de fralda com borra de café. Agora não valia a pena fazer piadas desse tipo, que mesmo nos bons tempos, apenas a esposa acharia graça.
Há alguns meses ele e o seu humor andavam ensimesmados. Assim também ocorria com os pensamentos e reflexões sobre a doença e a mulher. As ideias vinham, passavam pela cabeça, as sentia no peito, mas não conseguia pô-las para fora.
Lembrava-se de quando ela dizia:
— Eu te amo!
E ele, de imediato, respondia:
— Eu também te amo!
A repetição daquelas duas frases parecia fortalecer o sentimento nelas contido. A vida lá fora tão complicada, mas ali entre os dois, em seu mundo particular, tudo se tornava simples. Quando os ciclos se fecham, as transições de fase podem ser traumáticas. Inesperadas reviravoltas no trajeto deixam as coisas de pernas para o ar. E, um dia, o complicado invade o microcosmos do casal e os envolve numa rotina restrita ao quarto e ao leito. Ele agora permanece deitado, enquanto a esposa troca suas fraldas em silêncio. Logo ela, que nunca teve dificuldade para conversar. Trocar fraldas com merda do marido, talvez significasse mais que dizer mil “eu te amo”. Mesmo assim, ele gostaria de dizer:
— Eu te amo também!
Será que ela acharia estranho ele dizer “eu te amo também”, sem ela ter falado primeiro? E se fosse ao contrário? Se ela estivesse com incontinência fecal, em fase terminal de câncer de intestino? Ele poderia fazer alguma piada de cocô? Vai que em meio a dor e ao constrangimento a mulher riria de qualquer besteira dita pelo marido?
Nas longas horas de cama, em sua solidão interior, pode refletir sobre várias questões. Porque usava fralda? Na verdade, só lhe deram duas opções. Optou pela incontinência fecal, à colostomia definitiva. Porém, quase não participou das demais decisões sobre como viveria o restante de seus dias.
— É necessário realizar uma colectomia!
— O que?
— Retirar o intestino grosso! E depois da cirurgia, entramos com quimioterapia!
— Ok! Mas?....
Mas, e se recusasse o tratamento indicado? Pareceria estar desistindo da vida? Ela não merecia ter que trocar suas fraldas. Se a situação fosse invertida, será que ele trocaria as fraldas dela? Se ela falasse que não queria seguir tratando a doença. Será que ele a compreenderia? As vezes sentia raiva por estar morrendo. Quem sabe ela também sentisse algo parecido? Talvez se sentindo abandonada por ele? Haviam feito planos juntos e agora ele a abandonava. É permitido sentir raiva de quem está morrendo? Tinha vontade de lhe falar tantas coisas. Os dois sozinhos, isolados um do outro naquele quarto. Se eles conseguissem conversar, poderiam compartilhar suas angústias e medos. E o tempo esvaindo-se num silêncio antecipatório. Como ele gostaria de trocar as longas horas de sua vida, tão complicada de agora, por alguns minutos de boa conversa com a mulher!
— Pronto! Você vai ficar mais confortável! – disse a mulher depois de trocar a fralda e ajudá-lo a puxar a calça do pijama até a cintura. — E esse sorriso na sua cara? Posso saber do que você está rindo?
A pergunta feita de supetão lhe pegou de surpresa. Precisou pensar para responde-la.
— Estava rindo para a minha cafeomancista personal.
— O que? Não entendi nada!
— Rindo para você. E caso não saiba, cafeomancistas são as mulheres que interpretam o futuro na borra de café?
— Então seu fraldão virou xícara de café? E o cocô a borra? É isso?
— Isso mesmo.
— Ok. Mas preciso lhe fazer duas graves revelações! A primeira é que você comeu milho no jantar de ontem à noite. Os grãozinhos amarelos não mentem.
Os dois riram juntos, como há tempos não faziam. Depois de um tempo degustando o riso, ele quis continuar a brincadeira e lhe perguntou:
— E qual é a segunda revelação?
— Eu te amo!
— Eu também te amo!
Conspiração do silêncio é quando médicos, equipe de saúde e familiares de pacientes com doenças graves e potencialmente fatais, como o câncer, escondem, ou sonegam informações do doente sobre seu diagnóstico, bem como a gravidade da doença.
Argumentam que fazem isso para poupá-lo de mais sofrimento. Tal dificuldade de comunicação pode gerar uma ruptura da confiança do enfermo naquelas pessoas que lhe mentem ou omitem informações sobre o seu quadro clínico, criando uma barreira que, muitas vezes, o isola. Sem poder compartilhar seus medos e sofrimentos com as pessoas mais próximas, o processo do morrer se torna uma experiência ainda mais solitária. Esse cenário favorece a permanência de questões mal resolvidas, sentimentos não expressados e palavras não ditas. E ainda, para os que ficam, pode levar a um período de luto patológico. A terminalidade da vida é uma fase rica em emoções. Oportunidade única para trocas afetivas entre o doente terminal e sua família. Mas, infelizmente nem sempre aproveitada





Que vontade de ler a continuidade deste texto! Gostei, João!
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