Conto - Como nascem as bruxas, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- há 13 horas
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Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "Como nascem as bruxas".
Como nascem as bruxas
O nascimento de uma bruxa ocorre desde tempos imemoriais. Os antigos celtas diziam que bruxas nascem quatro luas após o equinócio de outono. Elas emergem da terra em alguma manhã após uma noite de lua nova. Podem surgir sob uma relva comum, mas preferem os campos recobertos por lavandas azuis. Na alba, enquanto os seres são vultos disformes, um comitê formado por feiticeiras de hierarquia intermediária se reúne para acolher a pupila.
Com os primeiros raios de sol vêm a iluminação física e a transcendental. Os últimos votos são direcionados à mente e ao coração da mais nova iniciada, para que seja sábia e ao mesmo tempo passional. Após o acolhimento e com o dia claro, tudo se transforma. As bruxas voltam a ser mulheres, mas continuam donas do feitiço. Seguem suas vidas, fazendo as suas artes, fortalecidas e renovadas pelo nascimento de mais uma companheira na comunidade cósmica.
As feiticeiras nascidas na vila de Malraqueçaba eram menos afortunadas que as da lenda céltica. Com Brígida, foi assim. A pequena tornou-se bruxa com dez anos recém-completados. Seu ritual de iniciação aconteceu em meio ao capim crescido e à lama pisada pelas mulas. De idílico, havia apenas o som da correnteza rápida de um riacho. Ocorreu em plena luz do dia, sob os olhares de pessoas não iniciadas e sem nenhuma empatia, com exceção de uma misteriosa senhora.
Brígida era uma menina linda. Por ela, preferia ser criança a ser bonita. Sem escolha, teve uma infância breve e de poucas brincadeiras. Possuía apenas uma boneca de sabugo de milho, com o rosto riscado de carvão, vestida de palha. Vivia numa tapera com o pai, a mãe, sete irmãos e o tio bêbado. Amontoavam-se no casebre de peça única, convivendo como prisioneiros da mesma miséria. Nas noites quentes, o ar fedia a suor, e nas frias o fedor dos corpos se disfarçava com o cheiro da fumaça do fogão a lenha.
Como gente grande, Brígida tratava das galinhas, arrancava mato da horta e buscava lenha para o fogão. Vez por outra, nos dias de calor, a menina ia ao riacho perto de casa. Nele ela molhava os pés fugindo da rotina. Havia uma pequena trilha por onde seguiam os frequentadores do riacho: mulheres para lavar os trapos, que um dia foram roupas; homens para peneirar água com areia, onde um dia houve ouro; e crianças para brincar n’água, fingindo ter infância.
Incompreendidas, as bruxas são acusadas de despertarem desejos. Tio, pai, padre, avô, irmão, nenhum homem estaria a salvo de seus encantamentos. E foi assim que Brígida, sem saber, enfeitiçou o irmão de sua mãe. No caminho para o riacho, o tio, bêbado como sempre, baixou a calça e levantou num único e decidido movimento o vestido da menina. As perninhas brancas e finas foram afastadas e a monstruosidade se concretizou. Algo nojento e doloroso penetrou na pequena Brígida; a respiração ofegante, o hálito pútrido e a baba gosmenta escorrendo pela orelha da menina concluíram sua
iniciação. Durou menos de cinco minutos. Quem por ali passou assistiu à cena medonha e nada fez nem falou.
Depois de algum tempo caída, iniciaram os tremores. Primeiro, nas mãos e na face; logo, o corpo inteiro convulsionava. As pupilas dilataram-se e um fio fino de baba escorreu pela boca. Em meio às convulsões, surgiu a figura de uma anciã. Face enrugada. Cabelos prateados. Bata verde. A velha pôs a mão delicada sobre a cabeça da criança e murmurou algumas palavras baixas e incompreensíveis. O corpo da menina foi acalmando, até os tremores cessarem.
As duas almas femininas trocaram um olhar cúmplice. A velha senhora ajudou a menina a limpar o sangue que escorria por sua perna. O sabugo de milho seco, de brinquedo, virou uma bucha higiênica, servindo para retirar um pouco daquela sujeira asquerosa. Ao final, a senhora disse bem baixinho, ao pé de ouvido:
— O sangue que sai da mãe da vida é poderoso. Pode ser gerado tanto pelo amor como pelo ódio. Com ele podemos influenciar toda a existência humana.
Depois entregou-lhe um punhado de folhas verdes e acrescentou:
— Use-as com sabedoria. Elas servem tanto para fazer o bem quanto para destruir o mal. Você tem o livre arbítrio para usá-las da maneira como achar melhor. Sua missão será curar cicatrizes invisíveis. Hoje começou seu aprendizado!
A menina poderia ter chorado, mas sentia algo tão ruim por dentro que não havia espaço para lágrimas. Voltou para casa. Para todos, exceto para ela, parecia que nada havia acontecido. Naquela noite deitou-se encolhida entre seus irmãos e logo dormiu. Em algum momento, a anciã vestida de verde aproximou-se dela.
— Hoje não pude me apresentar. Chamo-me Veridiana. Virei visitá-la em muitas e muitas noites mais. Conseguiremos nos comunicar em seus sonhos. Amanhã você usará as folhas que lhe dei para proceder à extirpação de um mal. Talvez, no futuro, em dias melhores, você, com essas mesmas folhas, socorrerá mulheres que virão ao seu encontro em busca de ajuda. Havia alguns dias que o tio não se sentia bem. Naquela manhã, além do enjoo, ele sentia dor na mandíbula e não se levantou da esteira. A mãe de Brígida, acostumada com as indisposições digestivas do irmão, pediu para a filha preparar um chá de confujo. A menina fez o chá com o punhado de folhas recebido de Veridiana. Entregou ao tio uma caneca de latão com a bebida fumegante. O asqueroso pegou a caneca. Soprou. Sorveu um primeiro e último gole. Transpirando muito e com as mãos comprimindo o próprio peito, que parecia doer, caiu morto diante da sobrinha.
A morte do tio se alastrou pelo lugarejo com a rapidez e o perigo de um rastro de pólvora aceso. Em Malraqueçaba não havia tribunal público. Não queimavam bruxas em fogueira. Quem antes não tinha visto nada agora era testemunha do feitiço da menina. Todos tinham a mesma convicção: Brígida enfeitiçou, seduziu e, por fim, deu uma poção fatal ao tio. E assim nasceu mais uma bruxa.





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