Conto - Coisas de agosto, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- 6 de jun.
- 2 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "Coisas de agosto"
Coisas de agosto
Encurralado entre o canteiro central e o engarrafamento de carros, sem rota de fuga, o vidro fechado lhe fingia proteção. De fora, o barulho do vento e das buzinas chegava abafado. Papéis e copos descartáveis flutuavam em redemoinhos aéreos. O lixo voador cruzando em frente ao para-brisa afirmava ser agosto.
Girou o botão do painel. O rádio não lhe distraiu do ambiente hostil. Dele vinha uma voz pessimista, insistente em lembrar seu destino: — O trânsito segue lento nas principais vias da cidade. Os motoristas devem evitar as ruas...
Sentiu saudades de quando não precisava de carro e apenas pipas voavam pelos céus de agosto. A gurizada descalça, de bermuda e sem camisa, empinava as voadoras. Se o vento vencia o barbante, lá ia a monstra fujona, caindo em rodopios. Em terra, o bando de meninos, gritando em algazarra, cometia a façanha de correr sem olhar para o chão, todos vidrados no céu, em perseguição à pandorga arrebentada.
Voltou para a realidade do carro fechado, quente e inseguro. Quanta violência. Arrastões, balas perdidas, assaltos em semáforos. A vida valia pouco, quase nada. E o carro preso no engarrafamento. Um pingo de suor frio escorreu pela testa. No peito apertado, sentia as batidas do coração. Se pudesse, abriria o vidro para respirar um pouco do ar fresco e poluído que lhe faltava.
O calor empapando a camisa de suor. O trânsito parado. As buzinas disparadas. As mãos trêmulas. O desconforto do peito foi para a mandíbula. Aquilo tudo lhe dava náuseas. Sentiu-se cada vez mais próximo do pior que poderia lhe acontecer.
A gritaria se sobrepôs ao barulho das buzinas e do vento. Os gritos violentos da falange vinham em sua direção. E agora? Sem rota de fuga. Tentou afrouxar a gravata fictícia. E o nó invisível lhe apertou ainda mais o pescoço.
Por que eles olhavam para o céu e não para os carros? Não deu tempo para saber a resposta, vinda num pedaço de rabiola, desgarrado da pipa e caído sobre o capô.





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