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Conto - Clovis: um camundongo sem sono, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 20 de set.
  • 3 min de leitura
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Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "Clóvis: um camundongo sem sono.


Clovis: um camundongo sem sono


Clóvis era apenas um camundongo sem sono.

Clóvis acordou no meio da noite. Quem sabe preocupado com as contas? Mas ele era apenas um camundongo e camundongos não têm boletos para pagar.

Clóvis era apenas um camundongo sem sono e sem preocupações.

Então, talvez pensasse em alguma prova da escola? Mas ele não perderia o sono por isso. Ele era apenas um camundongo e camundongos não vão à escola.

Clóvis era apenas um camundongo sem sono, sem preocupações e sem educação.

Clóvis escutou um ronco e passou a mão na barriga. Lembrou-se que dormiu sem comer. Mas ele era apenas um camundongo e camundongos sentem fome.

Clóvis era apenas um camundongo sem sono, sem preocupações, sem educação e com fome.

Na verdade, Clóvis era quase tão guloso quanto o dono da casa. Ele pensou em comer os restos da comida deixados pelo homem. Então Clóvis vestiu o roupão, as pantufas e foi fazer uma boquinha.

Desejou encontrar um bom farelo de pão e lascas de queijo espalhadas pelo lençol sobre a barriga do homem glutão. Com sorte, quem sabe, até degustaria algumas gotas estantes de vinho no fundo da taça.

Porém, naquela noite o cardápio não estava tão gostoso, lambeu uma gordura de salame italiano e enquanto ainda mastigava a metade de um amendoim japonês lhe ocorreu o imprevisto.

Clóvis era apenas um camundongo sem sono, sem preocupações, sem educação, como fome e sem noção de perigo.

O dono da casa, meio dormindo, num gesto súbito do braço lhe afastou de cima da barriga. O ratinho foi atirado para cima da esposa que dormia ao lado. No susto ele pulou para dentro da camisola da patroa.

A mulher tinha um sono leve e ao sentir algo correndo pelo seu corpo, sentou-se na cama e gritando acordou o marido.

O homem chacoalha daqui, chacoalha dali e de dentro da camisola salta o camundongo medroso.

Clóvis era apenas um camundongo sem sono, sem preocupações, sem educação, com fome, sem noção de perigo e com medo.

Clóvis correu rápido pelo soalho do quarto e conseguiu escapar, escondendo-se em sua toca. Ele era apenas uma camundongo e camundongos sabem correr e vivem em tocas.

Clóvis era apenas um camundongo sem sono, sem preocupações, sem educação, com fome, sem noção de perigo e com medo. E ufa! Para sua sorte era também um camundongo veloz e com uma toca confortável.

Ainda com as patinhas tremendo de medo, Clóvis lembrou-se o que sua vó fazia nessas horas em que camundongos não têm sono.

Pois água quente numa bacia e fez um gostoso escalda-pés. Tomou chá de erva cidreira e passou óleo essencial de menta nos pulsos. Depois de duas cheiradas o ratinho caiu em sono profundo.

Essa foi a história de Clóvis, um camundongo sem sono, sem preocupações, sem educação, com fome, sem noção de perigo, com medo e veloz.

Não! Clóvis era bem mais que isso. Vamos contar direito sua história:

Era uma vez um camundongo chamado Clóvis. Adepto da filosofia Zen, ele possuía a mente treinada para abstrair-se de problemas mundanos. Detentor de uma ousadia exacerbada, corria atrás de seus objetivos. Mesmo sem nunca ter recebido educação formal, detinha importantes conhecimentos empíricos e valorizava a cultura popular e ancestral. Ideologicamente defendia a divisão de bens de consumo e repudiava a prática de maus-tratos a animais. Cultivava hábitos saudáveis como o de comer fracionadamente, além de acreditar que a única maneira para se ter uma vida longa era com a prática diária, ou noturna, de atividades físicas intensas.

Pronto! Assim ficou melhor!

 
 
 

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