Conto - Bastardo, por André Alvez
- Alex Fraga

- 31 de jan.
- 13 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o escritor de Campo Grande (MS), André Alvez, com "Bastardo".
BASTARDO
“Dele você não precisa saber muito. Fugi de casa, encontrei-o no banco
da praça, namoramos, ele foi embora, você nasceu. Só isso”.
A mãe tinha poucas palavras e muito trabalho a fazer, sempre envolta em
manobras com massas de bolos e pães. Hélio escutou essa história uma única
vez, quando começou a estudar e os amigos da escola perguntaram sobre seu
pai. Não sabia o que dizer. Os amigos insistiram, dessas coisas de meninos que
de tudo querem saber. Não bastava ser apenas uma pessoa, era necessário saber
de onde vinha a pessoa.
Um tio, irmão da mãe, certa vez o levou à escola. Foi montado na
corcunda, o tio recruta do exército brasileiro, cheio de brilho na farda e um quepe
imponente escorregando na cabeçorra. Foi um dia feliz. Os amigos disseram: é
o pai do Hélio e ele não quis desmentir ninguém.
Num Domingo de Páscoa a mãe morreu de repente, mal súbito, o coração
parou, foi o que Hélio escutou. No velório, os amigos olharam para ele com ares
tristes. O tio o abraçou tão forte que quase lhe trancou a respiração. E agora?
Seu pai é o filho da onça, caçador de preás e outros bichos, a mão dele é uma
navalha, corta cipós numa só tacada, sobrevive dias sem ter o que beber. – O
recruta tinha os olhos esbugalhados, suspirou fundo, secou a boca, depois
continuou – Alguns dizem que a própria onça é quem lhe matava a sede, nas
noites em que a lua cheia ilumina as nascentes, já viram o bicho arrastando seu
pai pela gola da camisa. E ele sabe atirar, aleijou um sujeito por causa de uma
partida de sinuca. Quando fica brabo, é o bicho mesmo. É isso, você é filho do
filho da onça. É ele quem vai te cuidar doravante.
O tio não disse mais nada, sumiu nos becos da cidade em busca de putas,
bebidas e cigarros, o alívio escorrendo na testa grande em forma de suor quente,
suor salgado, os olhos piscando, invadidos pelas lágrimas sem represa, no bolso
um resto de dinheiro da irmã morta para gastar e mais nada. O recruta agora
era parte do pesadelo e Hélio montou num cavalo imaginário, galopando rumo
ao nada. Às portas do sono um desabe, sonhando com o pai, o filho da onça que
agora, sem saber de que jeito, iria conhecer.
Já no outro dia começou a esquecer do rosto da mãe. A casa vazia, o
reboco de cimento parecendo um risco malfeito, como se fosse um lápis tentando
indicar o caminho que iria dar em nada, no máximo nas teias de aranha no canto
do telhado. Do nada, surgiu uma senhora vestida de luto. O abraço forte, o cheiro
de lavanda, quase álcool puro, a embriague indesejado, mas agradável. Hélio
nada perguntou. A mulher o levou pelo braço para uma parada de ônibus e de lá
foram até a cidade vizinha. Hélio não conhecia a senhora, mas ela foi bastante
carinhosa com ele. Não tinha o costume de ser bem tratado por ninguém, só o
tio recruta às vezes e a mãe quando assistia tevê e a novela a domava, ritos de
emoção por causa da mocinha abandonada no altar. A senhora vestida de luto
não lembrava a sua mãe, embora naquele instante seu rosto já se esvaísse aos
poucos da sua memória. O tio recruta? Nada dele também.
O vento batia na fresta da janela do ônibus e esparramava o cheiro da
lavanda no rosto de Hélio. É bom, pena que é salgado. A senhora às vezes
apertava suas mãos. Falou pouco, mas disse o mais importante: “você vai morar
com o seu pai”. Os detalhes da estrada, repleta de verdes e montanhas, pouco
importavam. Um pai. Sim, Hélio tinha um pai e iria conhecê-lo, o filho da onça,
o homem que não morria no frio da floresta.
Quando o ônibus enfim estacionou na praça da cidade, Hélio olhou para
os bancos da praça e pensou: foi ali que tudo começou, a mãe fugindo do avô
bêbado, encontrando o olhar do homem forte, olhar de onça, olhar de quem não
morre na mata. Sim, o meu pai é assim, pensou enquanto assoprava um ranho
do nariz. Caminharam quatro ou cinco quadras, até chegar a uma rua cheia de
lojas.
A loja da esquina era diferente, toda azul, não um azul ao qual ele estava
acostumado, era mais forte, quase escuro, mas Hélio não se importava com a
diferença de cores, queria mesmo era olhar para o homem a quem a onça dava
água de beber no assombro da floresta. Colocou na cabeça que tudo era azul,
assim como o céu, embora naquele exato instante uma chuva fininha começasse
a cair. Um homem estranho de terno escuro passou por ele e tinha o olhar de
gente morta. Os mortos não caminham, pensou, era real, embora parecesse não
respirar. Acenou com a cabeça apenas para a mulher vestida de luto e ela o
ignorou por completo.
Hélio sentiu um medo mortal de atravessar a porta. A mulher vestida de
luto conduziu seus passos com um leve toque de mão nas costas.
“Venha conhecer seu pai.
Hélio tremeu. Um pai. Sim, ele tinha um pai. Ainda não se havia dado
conta por completo da nova realidade, nem bem terminava a semana em que
tudo mudou. Um pai, o homem que morria na mata, o filho da onça. O mundo
era azul e ele tinha um pai. Só tempos depois ele viria a descobrir que a real cor
do mundo - do seu mundo - era a cor da ardósia, triste como todo lamento,
desolador como o respirar do homem dentro da loja, cortando panos com uma
fita métrica envolta ao pescoço.
Um copo d’água, os dedos trêmulos, a moringa de barro quase escapando,
o par de sobrancelhas que subia e descia no ritmo das batidas dos dois corações,
finalmente frente a frente um com o outro.
“Você é o Hélio”, perguntou ele.
“Sim, sou”, respondeu. E bebeu mais dois copos d’água, virando tudo com
a cabeça inclinada para trás, quieto, ensimesmado, tentando não olhar para a
figura pequena à sua frente, como se fosse um quadro vivo daquilo que um dia
fora, nos dias de caça em meio à densa mata, sem água para beber, ouvindo os
passos da onça chegando bem perto.
“Que bom, você vai morar na minha casa”, disse o filho da onça.
A mulher vestida de luto enfim conseguiu se erguer, um giro ligeiro de
corpo, a mão invadindo a bolsa à procura de um isqueiro, o cigarro já pronto na
boca, torto, amassado, o cheiro forte de lavanda invadindo completamente o
ambiente.
“Você ainda duvida?” disse, apontando Hélio, a fumaça do cigarro, como
que seguindo uma ordem, emoldurando o rosto inquieto do menino.
“Nunca disse isso”, os olhos do filho da onça desceram até o chão.
Ela tragou o cigarro com força, quase derretendo o filtro.
“Nunca disse nada. O seu silêncio, a sua fuga, a sua ausência...Covarde!”
O filho da onça tinha um jeito próprio de enfrentar as adversidades da
vida. Era um forte, destemido, corajoso, mas nunca ousou erguer a voz contra
seu próprio sangue. Hélio percebeu a semelhança, as sobrancelhas idênticas,
pareciam vivas, movidas à ira, grossas, indeléveis.
“Não me chame de covarde. Você sabe...”.
A mulher de preto acendeu outro cigarro, balançou a cabeça.
“Pobre Yolanda, abandonada com a barriga daquele tamanho, você
nunca...”
“Pare, não fale, você não sabe o tanto que eu...”
“Não me fale, não me fale...”
E a nuvem de fumaça sobrevoou a cabeça dos dois enquanto Hélio fixava
os olhos no tecido de linho esparramado na mesa gigante à sua frente. Seu pai
fazia ternos. Era tudo o que ele conseguia pensar enquanto as vozes dos irmãos
revelavam antigos segredos. Ficou paralisado no canto da grande oficina de
alfaiataria até o dia terminar, um ar abafado de tecido velho e mofo, o calor,
agachado com as mãos entre os joelhos e uma sede medonha. Não teve coragem
de reclamar nada para si, nem mesmo um copo d’água.
O sino da igreja badalou alto, assustando Hélio, no exato momento em que a
mulher vestida de luto se foi deixando em seu rosto uma marca de batom e o
cheiro de lavanda. O último beijo, a última vista, até nunca mais. Ela se foi
levando junto os rastros do vestido de luto, a derradeira lembrança da tia que
nunca mais ressurgiu na sua vida. Hélio riu um riso nervoso, mas
compreensivo, era como o recruta, tinha a própria vida para lidar. As
últimas palavras: – Com o tempo você se acostuma – , embora a garganta
presa e os olhos ardendo de vontade de chorar, ergueu o corpo para cima,
mirou as vigas do telhado. Nada disse, mas pensou: eu nunca choro.
O pai foi caminhando à frente, Hélio timidamente atrás, a ansiedade entre
eles, as lojas que já não eram azuis, eram escuras tal e qual a noite aos
poucos tomando conta do céu.
- Você logo se acostuma – a única frase dita pelo alfaiate durante as cinco
quadras de percurso, até se dar de frente com a nova morada, casa caiada,
meia torta, um tanto triste, sem bichos, sem árvores, quintal pequeno,
cerca de balaústre. Hélio respirou fundo antes de entrar: “preciso me
acostumar”. O alfaiate já estava com a porta aberta e ele entrou, passos
tímidos, olhos percorrendo tudo ao redor, a vontade louca de voltar
correndo. Voltar para onde? Com o tempo você se acostuma...
E assim se deu, se adaptou a tudo. Na nova casa, três irmãos, semelhantes
até no modo de andar, surpresos com a chegada da nova criatura, o irmão mais
velho, o intruso, o cadelão, o bastardo. A mãe dos três irmãos era uma mulher
cruel. Nunca olhou diretamente nos olhos de Hélio, embora ele tenha tentado o
contato visual diversas vezes. O sofá da sala feito de cama, um par de mudas de
roupas usadas, o conga apertado que já não cabia nos pés do irmão do meio, a
vasilha para urinar, todas as portas trancadas, especialmente a cozinha, fechada
a sete chaves.
Ele foi se acostumando. Não tinha tempo para estudar, era preciso
aprender a profissão do pai, alfaiate, um nome bonito, a tarefa difícil, lida
delicada. A tesoura cortava não apenas o tecido, mas também a pele nas noites
de dor, de solidão. Um radinho de pilha, presente do filho da onça, foi o melhor
que obteve dele em toda a vida. Já não se sentia tão solitário, embora fosse
obrigado a ouvir no volume baixo, ouvido grudado no aparelho, para não
atrapalhar a família vendo televisão.
Lembrou da mãe, já completamente sem rosto no seu pensamento, mas
a mesma voz chorosa de quando a mocinha ficava triste na televisão. Agora na
casa tinha mais gente, mas nela ele não cabia, era como o piso diferente da
varanda, aquele que se quebrou depois de pronto e foi preciso ser trocado por
outro, mais escuro que as demais, denunciado por um brilho mais intenso.
A vida foi seguindo seu novo curso, e logo Hélio já sabia fazer camisas. O
dia todo trabalhando ao lado do filho da onça, tinha vontade de perguntar sobre
as coisas da floresta, se a onça realmente lhe deu de beber água na lua cheia ou
se tudo era história inventada pelo tio recruta. Mas não conseguia falar por muito
tempo com o homem que era a sua própria figura. Idênticos em tudo, até mesmo
no insistente refúgio no silêncio, no abandono completo da própria história. Não
conseguia chamá-lo de pai. Nas conversas, ambos evitavam o assunto. Não se
falava de pai, não se chamava de filho, eram profundamente estranhos entre si.
Hélio sonhava com um dia lá na frente, teria filhos, e deles seria um pai
verdadeiro. Tratou de aprender a profissão, logo já cortava o tecido mais rápido
que todos, era ótimo na tesoura e a costura dava inveja, embora falhasse vez
por outra ao pregar os botões.
As noites de Natal eram tristes. A festa de final do ano lhe causava o
desejo cada vez maior de deixar tudo para trás, seguir pela estrada, mas tinha
medo de ficar sozinho. Muitas vezes escapava através da imaginação, sonhando
um futuro. “Os meus filhos terão cabelos em cachos iguais aos meus e os olhos
amendoados iguais aos desse...senhor”.
O tio recruta morreu? A mulher vestida de luto usava roupa branca depois
de tanto tempo? Ouvia atentamente os fregueses antigos conversando com o
alfaiate. Ele contava histórias, todos riam, porque o filho da onça desafiava a
imaginação de todos. Os casos sempre envoltos em mistérios acabavam na
floresta, em noites de lua cheia, quando a onça aparecia para o homem
destemido e o tinha como um filho, lhe dava água de beber na imensa sede, a
mesma sede que o filho da onça lhe negava, o mesmo carinho ausente em todos
os momentos vividos, separados e juntos, dois estranhos num mesmo mundo.
“Falastrão, maldito falastrão, de onde tira tantas mentiras”? Hélio
ruminava. O campeão em tudo, o fodão, o terrível homem segurando um revólver
ainda quente entre os dedos, a pólvora marcando as mãos numa lastimável
atitude cruel, um impostor, covarde, covarde! A bala não matou o amigo, mas o
deixou paralítico, para sempre castigado por ter colado a bola do jogo de bilhar
afim de não permitir a tacada final e lacradora do grande campeão, o filho da
onça, o homem que não morre mesmo sem ter o que beber.
A filha virá primeiro. Depois, o filho. Serão meus e deles cuidarei com
carinho, com extremo cuidado, com todo amor, jamais sentirão sede, porque o
jarro de barro d água estará sempre comigo e perto deles – pensava Hélio -
enquanto a noite caía e a única companhia era a cantoria do radinho de pilha.
O amanhecer, a inegável vontade de mudar as coisas, chamar o sujeito
em um canto, abraçá-lo, beber um trago da mesma água que a onça lhe deu a
matar a sede e dizer em alto e bom som: sou eu, meu pai, o seu filho mais velho.
Mas logo a vontade se dissipava, tornava a ser domado pelo receio de não ser
aceito, do som da voz ser repelido por um trovão de tempestade: “não, nunca,
bastardo, bastardo”!
Enquanto o tecido era cortado, dava para medir a semelhança no rosto e
em tudo o mais. Sim, a mesma mão da filha, a mesma mão do filho. Eles ainda
não vieram, mas serão assim, só os cabelos cacheados serão diferentes, ainda
que também aquelas mãos, aqueles olhos amendoados estivessem presentes nos
irmãos mais novos, aqueles mesmos que o chamavam de intruso e cadelão, eles
também eram idênticos, o mesmo sangue frio do pai. Eles sim o chamavam de
pai a todo instante, a todo momento. Não sentiam aquela angústia, aquele gosto
amargo na boca que o impediam de falar, pobre Hélio, sempre tendo de conter
algum carinho, guardar para si a própria voz: “me abrace, meu pai, vamos
almoçar, venha conhecer os seus netos. Eles ainda não nasceram, mas imagine,
a menina é a sua cara, na verdade é a minha cara, afinal somos todos iguais.”
E no pensamento caminhava uma vontade secreta: falar sem que ele
ouvisse. Mas tudo terminava em silêncio, logo rompido, a voz dos irmãos mais
novos soava em forma de estorvo: “cadelão, cadelão, infame, sua mãe é uma
vaca que sempre quis matar a nossa mãe”.
“Não, tomem cuidado, não falem assim, a minha mãe sofreu demais”,
retrucava.
“Não importa, cadelão, vocês não deviam existir”, repetiam, implacáveis.
Os olhos de um dos irmãos mais novos são completamente negros, iguais
aos da mulher do alfaiate. Ela é cruel, condena com o olhar e quando fala, sua
voz é amarga, fere com gosto, faz a brisa suave soar como tormenta.
O alfaiate realmente acreditava que uma onça o salvou. Diversas vezes
Hélio se deparou com ele mirando o horizonte, abraçando um desejo louco de
voltar a ser jovem e caçar, atirar novamente, foda-se se a bala irá aleijar um
amigo. E dane-se se Hélio é uma criança e precisa de proteção, de carinho, de
amor.
O tempo, as primaveras vêm e vão, apenas o vazio permanece na voz de
Hélio quando frente a frente com o filho da onça, o homem que não nunca
morreu de sede.
É um estranho, só isso.
E veio a noite penumbrosa e longa em que o alfaiate sumiu. A casa
acordou com a gritaria de todos, menos Hélio, um tanto acostumado com a
ausência do pai.
“Viram? Sim, saiu à noite embaixo de chuva e entrou na mata, foi caçar
passarinho e preás”.
Mentira, foi embora. Noutros casos assim, sempre morre afogado o
desaparecido. Tantas vozes.
“Vai, cadelão, procura o meu pai. Ele não quer você como filho, mas
precisa que você o proteja. Entre na floresta, traga o meu paizinho, você deve
servir para alguma coisa”.
Coisa boa nunca vem quando a polícia aparece. Acharam um corpo. A
mulher entrou em desespero, quebrou o prato, gritou e desmaiou. Os irmãos
menores não se mexeram, ficaram impávidos, olhando para o irmão indesejado,
o cadelão: “vá você ver se é ele mesmo, ninguém aqui quer saber. Vá você,
cadelão”.
E ele foi, um tanto relutante, carregando uma menina pelas mãos, a filha,
para mostrar que sabia ser pai, nunca ausente. Um homem bom, embora a voz
tremesse quando as evidências uniam o seu ser com o alfaiate.
“Venha, moço, dê uma olhada. Vê se reconhece o defunto, é ele mesmo?
O filho da onça?” O policial suava em bicas, visivelmente desconfortável com a
mata, os insetos, a lama estragando as botas lustrosas.
O desejo de negar, se fazer falastrão feito o filho da onça. Hélio pensou
em fugir, mas se conteve. Estava lá, o corpo igual ao seu, os olhos cerrados,
morto de sede, frio e fome, a barba a fazer, mas no semblante a mesma soberba
de sempre. Sim, era ele, o homem das tesouras, aquele que cortava os tecidos
com perfeição, o homem admirado por todos, por quase todos, menos por ele, o
filho bastardo. Ou não era bem assim? Hélio nunca soube responder.
“É ele, seu moço”?
O coçar de queixo, a cabeça balançando, afirmando: “sim, é ele. Como
morreu?” “Se perdeu na mata, morreu de sede”, disse o policial, subitamente
solidário. Mas, e a onça, não veio lhe dar água, matar sua sede? Não, não existe
luar perfeito, não existe bicho selvagem que não mata, não existe o rebento de
onça, não existe alma penada.
E colocaram o homem num caixão, lhe vestiram um terno cinza, lhe
fizeram a barba, podaram o bigode, ficou um defunto maravilhoso de belo. Muita
gente em volta. O caixão mal cabia na mesa da sala, o cheiro de vela misturado
com flores sufocando o lugar. Tinha que enterrar naquele dia, antes de começar
a feder. Um senhor olhou para o defunto atentamente, fez o sinal da cruz. Era o
mesmo homem estranho usando terno escuro do primeiro dia de Hélio na cidade.
Os olhos sem viço desviaram para o lado, de medo e credo e deu de frente com
a figura impávida de Hélio quase ao seu lado. Olhou novamente para o defunto,
depois para Hélio, comparou os dois, eram quase idênticos.
“Você não vai chorar”?
Os mesmos olhos e a mesma boca do defunto.
“Nunca choro”
“conhece o morto”?
Era praticamente um desconhecido, mas naquele momento, Hélio respirou
fundo, olhou o homem estranho de frente e falou numa voz ressentida, sepultada
desde muito tempo, desde o primeiro amanhecer:
“sim, é o meu pai”.
Enfim falou e ele não escutou. E foi se sentar num canto da sala,
carregando o mesmo semblante de antes, daqueles tempos de solidão, as mãos
apoiadas nos joelhos, se deixando tocar pelo roçar carinhoso em seu rosto, o
beijo de uma filha e de um filho, bastante semelhantes a ele, das mãos e olhos
amendoados, dos cabelos cacheados soprados pelo vento e que ainda sequer
haviam nascido.
André Alvez





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