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Conto - A Noiva, por João Francisco Santos da Silva

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 6 de jul. de 2024
  • 4 min de leitura

Atualizado: 2 de ago. de 2024


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Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clinico geral, acupunturista, escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "A Noiva".


A Noiva


A cirurgia demorou mais que o planejado. A massa tumoral muito grande e a hemorragia dificultaram a operação. Ao final, o auxiliar se surpreende ao verificar o peso da peça retirada.

— Um quilo e meio! Que tumor gigante! Você já havia operado algum assim tão grande? Pergunta para o colega mastologista.

— Em uma pessoa viva, não. Mas, já retirei um muito maior pós mortem. Foi o tumor mais feio que já vi.

— Que história é essa? Agora fiquei curioso.

— Não sei se era tradição, religião ou superstição. O fato é que a família desejava sepultá-la vestida de noiva. O tamanho do tumor impedia que lhe vestissem o traje nupcial. Tirei rápido. Quase sem respirar. Queria abreviar aquela estranha cirurgia. Depois de retirado, suturei a pele com capricho e delicadeza. A mama após reconstituída ficou praticamente igual à do lado sadio. Lhe vestiram um sutiã rendado. Depois fui embora. Eu não tive coragem, nem disposição para vê-la vestida de noiva.

O mastologista parou o seu relato até o ponto que conhecia da história. Já o auxiliar curioso foi em busca do que faltava ser contado.

A moça nasceu com um leve grau de deficiência mental. No limite às vezes é pior. Querem que acompanhem e faça tudo que uma pessoa sem déficit faria. Na escola o desempenho sempre foi frustrante. O assédio inevitável. Coitada, quanta violência emocional deve ter sofrido. Já no ambiente doméstico era uma mistura de cobrança, pena, decepção e sobretudo, mentiras. Não admitiam o problema da menina. Dessa forma, foi quase impossível conseguirem ajudá-la. Verdadeira conspiração do silêncio. Frequentou a escola dos sete aos catorze anos. Foi ficando e ficando para trás. No tempo que poderia ter concluído todo o ensino fundamental, chegou apenas ao terceiro ano.

Adolescente, e com os hormônios dentro da normalidade, passou a sentir as mesmas coisas que as jovens de sua idade costumam sentir. Tinha libido, menstruava, se interessava por sexo. Situação difícil para a família. Quem sabe conseguiria casar? Então começaram as ideias de arrumar um namorado e iniciar a confecção do enxoval. Já estava meio fora de moda adolescentes costurarem seu próprio enxoval, mas no caso dela, poderia até ser bom. Distrairia a cabeça e, quem sabe se desse certo, atrairia algum homem bom e compreensivo. E sempre tem uma tia disposta a ajudar, e a refazer os aviamentos errados do enxoval que a moça fazia.

O tempo foi passando, e nenhum candidato a noivo apareceu. Um dia, durante uma crise de choro, desiludida da vida e já sem esperança de se casar, vem a grande notícia: finalmente, aos 31 anos a família havia encontrado um pretende adequado para ela. Um fazendeiro abastado que vivia no Norte. Numa viagem, só de passagem pela cidade, viu a moça e desde então não conseguiu mais parar de pensar nela. O moço apaixonado encasquetou que queria se casar com a jovem. Depois de casados, ele a levaria para morar em sua fazenda e lhe trataria como uma princesa. Igual a de um livro infantil, cheio de gravuras e que a moça nunca se interessou pelo que estava escrito. Preferia ouvir a história contada pela boca de seu pai, onde ela era a princesa. Teriam no mínimo três filhos. O fazendeiro iria lhe dar de presente um piano de calda e ela tocaria todas as noites para ele.

A partir desse dia tudo se acelerou. A noiva precisava voltar as aulas de teclado, que já havia começado inúmeras vezes sem nunca ter aprendido uma nota sequer. O seu pai a tranquilizou que se não aprendesse com o teclado, ela poderia fazer aulas direto no piano da fazenda depois de casada. O importante agora era o vestido de noiva. O traje que ela usaria no dia mais importante de sua vida. A família lhe disse que não precisava ficar ansiosa e nem ter pressa. O noivo estava completamente apaixonado e lhe esperaria durante o tempo que fosse necessário.

No início a tática foi dando certo. A moça solteirona ocupava o seu tempo e a sua cabeça com os preparativos para o casamento. Dizia que seu noivo além de rico, era muito lindo. E que quando lhe beijava ela não sabia nem explicar o que corria pelo seu corpo. Os vizinhos já conheciam a história do tal noivo fazendeiro, da festa do casamento e do vestido de noiva de trás para frente. Verdade que a história sempre possuía modificações dependendo do dia em que estava sendo contada.

Contudo, um dia a realidade da vida cruzou o destino da noiva sonhadora. A mama direita estava aumentada e doendo. O médico palpou uma massa dura e fixa. Fez a pior cara que se pode fazer. Como que havia deixado crescer tanto? Realizou uma biópsia e o resultado foi devastador. Câncer de mama agressivo. O médico ainda explicou que aquele tipo de câncer costumava crescer rápido e atingir grandes volumes. Sem chance de cura.

A moça não entendeu nada. Mas a família lhe disse que queriam adiantar o casamento. Foi uma corrida contra o tempo para terminar o tal vestido. Muita dor e fraqueza. Passava a maior parte do tempo sentada e no final apenas deitada com a respiração ofegante. Os pulmões já haviam sido atingidos por metástases. Começou a se

preocupar com a sua aparência, pedia para lhe maquiarem. Passavam uma base e pó no rosto para disfarçar o indisfarçável. Finalmente, chegou o dia tão esperado. Na penumbra de seu quarto pode ver o vulto do noivo. Homem distinto e de poucas palavras. Ele sentou-se na beira da cama e ficou apenas segurando as suas mãos magras. Último dia de noivado. Tudo pronto para o casamento amanhã.

Restava um derradeiro preparativo: retirar o estorvo do peito. O médico compreensivo, fez as vezes de costureiro ao revés. Em vez de ajustar o vestido, ajustou o corpo. De sutiã rendado o colo ficou ainda mais valorizado dentro do vestido todo branco. O padre, a família, os convidados e a noiva estavam presentes. O noivo também. Sempre esteve, desde daquele dia em que ela chorou muito e clamou para realizar apenas um de seus muitos sonhos nunca realizados. Não sei se a história foi bem assim. Mas, a moça foi enterrada vestida de noiva.

 
 
 

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naf.celular
07 de jul. de 2024
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❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️👏❤️❤️👏❤️❤️❤️❤️

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