Conto - A moça do sorriso enigmático, por André Alvez
- Alex Fraga

- há 10 horas
- 2 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o escritor de Campo Grande (MS), André Alvez, com "A moça do sorrido enigmático"
Cenas do Supermercado – A moça do sorriso
enigmático
No supermercado, no corredor das massas, uma moça ao lado não
tirava os olhos de mim.
Olhei de viés, guardei os detalhes: entre tantos atributos, ela tinha
um sorriso enigmático. Continuou me olhando, fiquei sem graça, olhei
para os lados para ter certeza que a coisa era mesmo comigo.
Só tinha eu, então era.
Respondi o sorriso num outro um tanto mais fechado, nada de luz
nos olhos, nenhuma esticada no canto da boca, nada que não fosse
um sorriso sincero, sem segundas intenções, queria demonstrar que
sou casado, um homem sério, pai de família e que em nenhum
momento percebi o perfil perfeito embaixo daquele sorriso
encantador. Veio se aproximando, armada dos olhos enigmáticos, do
sorriso encantador, cada vez mais perto...Perdi o rebolado, deixei
cair o pote de Tarantella. o molho de tomate se esparramou pelo chão
e acabei derrubando também o pacote de macarrão e os pães.
Ela correu em meu socorro, pegando os pães, juntando no pacote e
me entregando sem desviar os olhos enigmáticos.
O perfume, a lavanda, algo assim, me entorpeceu de vez. Percebi
que não era loira original, mesmo assim, o dourado dos cabelos me
enfeitiçou de vez.
Nos levantamos e erguemos os olhos ao mesmo tempo. Ela tinha a
minha mesma altura e um belíssimo par de olhos castanhos.
Rapidamente, sem me dar tempo de reação, colocou no bolso da
minha camisa um pedaço de papel e partiu em retirada, linda,
desviando das prateleiras numa sensacional caminhada em forma da
letra S, virando-se duas vezes para trás no sentido de se certificar
que eu estava no mesmo lugar, parado feito estátua. Sumiu no meio
das prateleiras e fiquei um bom tempo contemplando o nada,
tentando entender.
Perguntas surgiram na minha mente:
Não percebeu a minha aliança?
Não desconfiou que tenho idade para ser seu pai?
Será que ela é de escorpião?
Um tanto afoito, apertei o papel no bolso da camisa, descobri que era
um cartão. Ah, certamente um convite, quem sabe um poema -
pensei – enquanto a vida voltava ao normal.
Paguei a conta, ajeitei os embrulhos, fui saindo de mansinho,
empurrando o carrinho de compras bem devagar, aos poucos
retirando o cartão do bolso e o levando até ao alcance das minhas
vistas e ajeitando os óculos no rosto: em letras bonitas, estava
escrito: Doutora Carol de Azevedo, dermatologista, especialista em
implante de cabelos.
Joguei fora o cartão, tinha pressa pra fazer meu macarrão...
André Alvez





Comentários