Conto - A menina e o galo, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- 9 de ago. de 2025
- 3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Dourados (MS), João Francisco Santos da Silva, com "A menina e o galo".
A menina e o galo
O distrito onde a menina do galo vivia, não passava de um canteiro de obras da estrada de ferro. Lá havia uma dúzia de casas de operários, todas próximas da pequena estação ferroviária ainda em construção. A menina se chamava Clarice e seu galo era o Pancho, um jovem e robusto garnisé preto. Clarice e o galo eram inseparáveis, como unha e carne. No pequeno lugarejo todos conheciam a dupla.
A cada dois ou três meses, Clarice ia passear na Cidade. Passava um sábado e domingo na casa da tia. Essa era uma das raras ocasiões em que se afastava do garnisé preto. Num desses finais de semana com a tia, o galo ficou sob os cuidados da mãe de Clarice, uma mulher muito prática e empreendedora, sabida em aproveitar as oportunidades na vida.
Fazia dias que a esposa do fiscal de obras mantinha os olhos gordos no galinho garnisé. A moça havia dado à luz há poucos dias. Desde então, ela encasquetou que precisava tomar um caldo forte. Uma canja do garnisé seria perfeita para ela melhor amamentar o bebê. Mas a verdade verdadeira é que a moça glutona babava de vontade só em pensar no galo em seu prato.
— Que franguinho bom para uma canja! Quanto custa? — perguntou a moça.
— Não está à venda. É de estimação! — respondeu a mãe de Clarice, demonstrando desinteresse.
— Dou 15 por ele. — insistiu a moça.
— Sim. Por 20 está bom. — avançou a mãe na negociação.
— Fechado. disse a moça encerrando a compra.
Clarice passou o final de semana inteiro incomodada. Ela não sabia o motivo. Mas sentia um aperto no peito.
— Onde está o Pancho? Você cuidou bem dele? Sonhei que tinha ocorrido uma tragédia.
— Filha, antes que eu lhe conte, já aviso que não quero choro.
— Buááá! Buáaa! Buáa! Porque ela não quis o Comanche que só sabe dar esporadas nos outros. A infeliz foi pegar logo o meu Pancho.
— Filha, ela recém pariu. O caldo foi para a mãezinha se fortificar no resguardo. E Comanche é galo lutador, não está à venda! Vale mais na rinha que numa panela de canja!
— Mas ele era de estimação mãe! Membro querido da família, ficava no portão me esperando chegar da escola. Depois se empoleirava no meu colo enquanto eu fazia cafuné na sua cabecinha até ele dormir.
— Morreu por um bom motivo! — disse a mãe já impaciente com as lamúrias da menina.
— Bom o motivo o escambal! Quero que o Pancho vire uma alma penada e venha bicar a barriga gorda daquela gulosa.
— Clarice, chega de malcriação! Cala boca e deixa de choro!
Depois de algum tempo em silêncio, e ainda, em meio aos soluços da menina, a mãe tenta consolá-la.
— Eu tenho uma supressa que você vai gostar. Seu pai comprou um outro animalzinho de estimação para você.
— Um galinho?
— Não.
— Um cachorro?
—Claro que não minha filha! É um bicho mais útil.
— Mais útil! Exclamou a menina intrigada e curiosa.
— Sim. Um lindo leitãozinho. E já desmamado. Presente para você filhinha.
— Obaaa! Já sei, ele vai se chamar Pablo!
— Puxa Clarice, você sempre criativa para dar nomes. — falou a mãe com um pouquinho de ironia.
— Ele pode dormir na minha cama mãe?
— Claro, pelo menos enquanto ele for filhote. E você deve cuidar muito bem dele. E será responsável por alimentá-lo todos os dias. Se você fizer tudo direitinho, quando chegar o Natal ele já estará bem gordinho e pronto.... A mãe interrompeu subitamente a fala.
— Pronto para que mãe?
— Para participar da nossa ceia de Natal.
— Que legal. E ele também ganhará presente?
O leitãozinho logo tornou-se o novo melhor amigo da menina. Mas o pequeno suíno não era tão educado quanto o falecido garnisé. Para sair na rua, ia sempre de coleira no pescoço e guia. De longe, parecia mais um cachorro que um porco. E pelo menos até o Natal, Clarice passou a ser conhecida no Distrito como a menina do porquinho.





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