Conto - A Fantasma Jubilada, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- 22 de mar. de 2025
- 3 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de conto com o clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grane (MS), João Francisco Santos da Silva, com "A Fantasma Jubilada".
A FANTASMA JUBILADA
Primeiro caiu a janela e ela tampou sua abertura com um plástico preto. Depois a porta escancarou e ela a deitou solta, atravessada na entrada. A chuva começou a entrar por frestas nas telhas partidas, logo as goteiras tornaram-se cachoeira. Um dia a parede do quarto dos fundos cedeu, e ela passou a ficar somente na sala. Quando a parede da frente veio abaixo, trouxe o teto junto consigo. Ela se mudou para o banheiro e desde então, sentada no vaso, meditava por horas e horas intermináveis sobre a sua existência. Se tivesse escolhido uma profissão melhor remunerada, a casa não se encontraria em estado tão precário. Só desistiu do banheiro quando o piso afundou e ela quase foi expulsa pelo esgoto.
Sua permanência ali tornou-se insustentável. Precisava tomar uma dura decisão. Como é difícil deixar a casa na qual viveu por mais de uma vida. Não sabia o que fazer. Não possuía parentes ou amigos para pedir hospedagem. Foi quando se lembrou que já estava morta há uns 60 anos, bem antes da janela cair. Que engraçado! Nem se lembrava mais dos detalhes. Se não foi um infarto fulminante, pode ter sido uma diarreia? Talvez daí a sua fixação por ficar horas e horas meditando no banheiro?
Casa abandonada, mal-assombrada e agora em ruínas. Pensando bem, havia chegado a hora de se aposentar dessa vida de assombração de casa antiga. Para que serve um fantasma que não assusta ninguém. Não por falta de vontade, mas de oportunidade. Em todos esses anos, nunca passou uma viva alma, sequer uma criança medrosa, pela frente da casa.
Deve existir algum tipo de retiro para almas penadas aposentadas? Não era muito exigente, só não desejava assombrar cemitérios, lugar movimentado, não teria sossego com tantas assombrações indo e vindo por lá. Deve ter desenvolvido trauma de guerra. Nenhuma pessoa supera experiência desse tipo. Mesmo morta, ainda sonhava com o disparo da campainha e todas aquelas pessoas correndo desorganizadamente. Depois de tantos anos não conseguia esquecer os gritos que ainda ressonavam em seus ouvidos. Pensando bem, a morte foi sua libertação.
Agora desejava mudar de endereço. Bom mesmo seria deixar de ser assombração, mas desde que morreu não sabia fazer outra coisa. Pensou que podia pedir uma carta de recomendação. Quem sabe, com muita oração, ela conseguisse uma colocação em um lugar bem frequentado. E se tudo desse certo, com o tempo seguiria carreira e evoluiria para níveis mais elevados. Então começou a rezar. Ela rezava, ria e chorava. Depois
chorava, ria e rezava. E rezava, rezava e rezava. Até que em um certo dia suas orações foram ouvidas.
Um ônibus diferente, mais moderno dos que conheceu em vida, parou em frente da casa e a porta dianteira se abriu. Uma voz vinda de dentro, lhe disse:
— É pegar ou largar!
Não pensou duas vezes e embarcou no coletivo. Quando entrou no veículo e viu quem eram os demais passageiros, se pudesse teria desembarcado na mesma hora. Tarde demais, o motorista já arrancara o ônibus. Os companheiros de viagem formavam um grupo assustador. Gritavam, corriam pelo corredor, se empurravam. Pensou que aquilo só podia ser vingança por erros passados. Depois de alguns minutos de sofrimento, o ônibus reduziu a velocidade para passar sobre uma lombada. Sem vacilar, a fantasma saltou pela janela e espatifou-se de cara na rua, justo em frente a um cemitério.
Ainda caída, viu o ônibus se afastando ao som de uma algazarra ensurdecedora. Ela acreditava em destino. Se desembarcou na frente de um cemitério, devia ser para ficar morando por ali mesmo. Quanto a agitação do lugar, poderia dar suas escapadas nos finais de semana e no feriado de finados, períodos em que o cemitério fica mais tumultuado. Tantas visitas geram um pouco de ansiedade e atrapalham o repouso das almas mais sensíveis. Porém deve ser bem mais tranquilo que assombrar um ônibus escolar cheio de crianças vivas e saudáveis.
Pensando nisso, lembrou-se de como morreu. Professora do terceiro ano fundamental, infartou no horário do recreio depois de permanecer três horas seguidas refém da sua turminha.





João Francisco é gato de botas 7 léguas ❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾
Nossa. Fantástico esse texto. Parabéns João Francisco.
Paulo Gonçalves - São Paulo SP