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Crônica - A aceroleira, eu e uma saudade de mim, por Tânia Souza


Terça-feira no Blog do Alex Fraga é dia da crônica da professora, escritora e poeta de Campo Grande (MS), Tânia Souza, com A aceroleira, eu e uma saudade de mim


A aceroleira, eu e uma saudade de mim


Tarde sem sol, brisa leve e domingueira. Acerolas vermelhas e suculentas no pé, impossível resistir. Mas quem já colheu as coradas frutinhas direto da fonte, sabe bem que sairá de lá com os braços e onde mais o corpo tocar a planta, com uma coceirinha chata, ardida. Eu, como não resisto à tentação, ainda mais quando é vermelha, fui à luta, digo, à fruta. Coceiras depois, um delicioso suco animava à tarde. A aceroleira é uma planta bem resistente, nasce fácil, e dá frutos o ano todo, ao menos na região onde cresci, mas seus frutos são delicados, depois de maduros, não duram mais que dois dias no pé, e colhidos assim no ponto, rubis deliciosos, cachos tenros com aquele gostinho de infância que adoro sentir quando volto de férias para a pequena cidade onde cresci, tem sabor inigualável. Durante muito tempo foi assim, colhia os frutos, era agraciada com o sabor doce ácido, e também com a leve alergia. Certa vez, domingo como hoje, um pessoa querida, dessas que ainda não perderam o contato inicial com a natureza, um menina, colhia acerola direto no pé, eu e a rede, embaladas na modorra, balançando com as sombras da mangueira, só olhava, mas não resisti e fui ajudar, colhemos, entre risos e conversas somente possíveis no silêncio das árvores, e logo tínhamos inúmeras frutinhas vermelhas, saborosas. Mas percebi algo diferente, meus braços, a pele do pescoço, onde toquei os galhos, não coçava, e admirada, comentei isso com ela, com ar de surpresa. Surpresa maior foi a dela, que virou-se para mim dizendo: — É claro, eu pedi licença.

Não pude deixar de sorrir, repetindo: — Pediu licença? Como assim, está brincando né?

— Não! — Seu rosto tranquilo de quem conhece a vida, me olhava como quem pensasse de onde será que eu tinha vindo, e assim serena me ensinou nova lição: — Tem que pedir, dizer baixinho para a planta, dá licença, vou pegar umas frutinhas, e pronto, não vai coçar nada. Entre descrente e surpresa diante do inusitado, e da prova em minha própria pele, fiquei calada, terminamos de embalar, congelar, e entre uma e outra que eu saboreava, não podia deixar de pensar nas palavras que não saiam da minha mente. Seria verdade? Pode ser coincidência? Alguma explicação cientifica? Parece simplesmente superstição... Mas a verdade é que todas às vezes, desde sempre, que me aproximei dos galhos da aceroleira, minha pele reagia, e ao lado de toda aquela sabedoria menina, nada aconteceu. Como tudo que não sabemos ou podemos explicar, resolvi deixar para depois, e aproveitei o resto das férias. A viagem acabou, voltei para o asfalto e ao concreto dos meus dias, mas de quando em quando, relembro e não esqueço as palavras, e da minha lição, e nem posso deixar de lembrar Shakespeare, há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia. Talvez, o ser humano tenha de fato se esquecido da linha, do tênue cordão umbilical cortado, ligando homem e terra, sangue e seiva, entre o céu e a natureza, e alguns, sensibilidade, e não por ser politicamente correto ou moda, ainda guardem esse elo, ainda sentem a seiva e a força da terra, da arvore, da vida, sem espanto, sem aviso, apenas, natural. Se a arvore escutou ou não jamais saberei, mas sei que aprendi naquela tarde, no rosto sorridente daquela menina, que ela sabe respeitar a vida, beber da fonte, tocar a raiz sem magoar, sem máscaras ou modismo, e sair dali ainda mais forte. Sem coceiras.

O homem, esquecido de si, da terra, do elo universal, corrompe, discursa, luta, briga, mas não pede, não tem a singeleza daquela guria, sorrindo, calada, pedindo baixinho, licença respeitosa e serena, colhendo a própria vida do pé.

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