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Bonito - No CineSur, Paulo Betti reflete sobre o ofício do ator

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 31 de jul.
  • 3 min de leitura

Em tempos em que a atuação parece cada vez mais submetida a métodos, protocolos e novas especializações profissionais, Paulo Betti propôs um exercício de retorno à essência. Na "Charla" (bate-papo) realizada durante o Bonito CineSur, o ator transformou uma conversa informal com o público em uma reflexão sobre o teatro, a formação artística e os caminhos que a interpretação vem tomando no audiovisual brasileiro.


A proximidade com as pessoas deu o tom do encontro. Betti lamentou, inclusive, que na Flib (Feira de Literatura de Bonito) realizada no mês passado durante a apresentação de seu espetáculo tenha sido prejudicada por uma decisão prática. "Gosto muito dessas conversas intimistas com o público. Pisei na bola porque, na peça, não deixei trocarem o microfone, Peço desculpas", comentou, revelando a importância que atribui ao diálogo direto. Não se tratava apenas ficar contrariado por uma falha de produção, mas de deixar de lado aquilo que o teatro produz de mais valioso: o encontro.


Sem receio de contrariar tendências consolidadas na indústria audiovisual, Betti demonstrou desconforto com a crescente tecnificação da preparação de atores. "Existe agora esse maldito nome de diretor de elenco", afirmou, ironizando a multiplicação de funções que, em sua avaliação, muitas vezes retiram do ator a liberdade de construir seu próprio caminho criativo.


A crítica, no entanto, ia além da nomenclatura. Para Betti, parte dos processos contemporâneos de preparação tornou-se excessivamente pesada, quase terapêutica, transformando a construção do personagem em um percurso de sofrimento obrigatório. "Procuro tirar o peso dos atores. Os atores não precisam se matar. Alguns preparadores de elenco exageram", observou. Sua visão confronta uma tendência relativamente difundida desde a popularização de determinados métodos de interpretação, nos quais a intensidade emocional e a imersão absoluta no personagem são frequentemente tratadas como sinônimos de qualidade artística. Para Betti, essa lógica pode obscurecer aquilo que considera a verdadeira matéria-prima do ator: o texto.


Ao recordar a experiência de interpretar Carlos Lamarca no cinema, ressaltou o desafio de construir um personagem complexo em apenas dois meses de preparação. A lembrança serviu para reafirmar uma convicção que atravessa toda sua carreira: "O ator tem que interpretar o texto e não esbarrar no cenário. Quero investir mais no texto. "A frase sintetiza uma defesa da dramaturgia que parece cada vez mais rara em uma indústria frequentemente orientada pelo impacto visual, pela velocidade das produções e pelo naturalismo das interpretações. Para Betti, antes de qualquer técnica, existe a palavra escrita. É nela que reside a arquitetura do personagem.


Essa preocupação reapareceu quando dirigiu um conselho aos jovens artistas. "Se preocupem muito com o texto. Façam teatro", disse. Mais do que uma defesa da cena teatral, sua fala revela uma compreensão de que o palco continua sendo o espaço privilegiado para a formação do ator, justamente por exigir disciplina, domínio da palavra, escuta e presença cênica. Curiosamente, enquanto criticava certos excessos da profissão, Betti também desmontava a imagem idealizada do próprio artista. "Sempre me achei um ator mediano", confessou, numa declaração que soa menos como falsa modéstia do que como reconhecimento da natureza permanente do aprendizado artístico. Em vez de reivindicar genialidade, preferiu destacar o privilégio de ter encontrado personagens que o desafiaram. "Todos os personagens que fiz eu gostei."

Ao recordar sua trajetória, atribuiu parte fundamental de sua formação à escola pública integral onde estudou. A lembrança não surgiu apenas como memória afetiva, mas como reconhecimento do papel da educação pública na formação cultural de uma geração de artistas brasileiros.


Ao refletir sobre a profissão, Betti apontou ainda dois sentimentos que considera inseparáveis da carreira artística: "vaidade e insegurança". Longe de tratá-los como defeitos individuais, sugeriu que ambos fazem parte da própria condição do ator, permanentemente exposto ao julgamento do público, da crítica e do mercado.

Mais do que compartilhar histórias de bastidores, Paulo Betti ofereceu uma rara oportunidade de discutir o ofício do ator sob uma perspectiva crítica. Em um momento em que a indústria audiovisual valoriza cada vez mais procedimentos, treinamentos e performances de alta intensidade, sua fala reposiciona o debate em torno de elementos frequentemente esquecidos: o texto, a dramaturgia, a experiência do teatro e a inteligência da interpretação.


Foi, talvez, uma das conversas mais relevantes desta edição do Bonito CineSur justamente porque evitou o lugar-comum das celebrações de carreira. Em vez de reverenciar o passado, Paulo Betti convidou as pessoas a pensar o presente da atuação brasileira — e a perguntar se, em meio a tantos métodos e especializações, o ator não corre o risco de se afastar daquilo que constitui o fundamento de sua arte: a palavra.

 
 
 

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