Bonito - Narrativas indígenas iluminam CineSur
- Alex Fraga

- 24 de jul.
- 3 min de leitura

Festival de Cinema Sul-Americano reúne produções de 13 países e destaca narrativas indígenas como expressão de memória, identidade e preservação ambiental
A partir desta sexta-feira (24), Bonito (MS) volta a se transformar em um dos principais polos do cinema sul-americano com a realização da quarta edição do Bonito CineSur. Até o dia 1º de agosto, o Festival de Cinema Sul-Americano exibirá 32 produções de 13 países, promovendo uma programação gratuita que reúne exibições, debates, oficinas e encontros entre realizadores. Neste ano, um dos aspectos que mais chama a atenção é a presença significativa de filmes que colocam os povos originários no centro das narrativas. Embora a curadoria afirme que não houve uma escolha temática deliberada, a seleção acabou revelando uma forte convergência de obras voltadas às questões indígenas, refletindo um movimento crescente do cinema latino-americano contemporâneo.
Cinema como memória e resistência - Entre os destaques está "Aldeia de Nalike", documentário histórico filmado em 1936 pelos antropólogos Claude Lévi-Strauss e Dina Lévi-Strauss junto ao povo Kadiwéu, em Porto Murtinho (MS). O filme, realizado em 16 milímetros e originalmente silencioso, será exibido com uma trilha sonora inédita, criada especialmente para esta edição do festival.
Lideranças indígenas presentes - O festival receberá ainda o líder indígena Almir Suruí, protagonista do documentário "Minha Terra Estrangeira", dirigido por João Moreira Salles e Louise Botkay. O longa acompanha a trajetória política do líder indígena e de sua filha, Txai Suruí, na defesa da Amazônia e dos territórios tradicionais, abordando questões relacionadas à preservação ambiental, aos direitos dos povos originários e aos desafios enfrentados pelas comunidades indígenas brasileiras.
Um olhar continental - A temática indígena ultrapassa as fronteiras brasileiras e também aparece em produções internacionais. Entre elas estão o curta colombiano "Sukua", sobre um menino da etnia Cogui que recebe uma pistola de água como presente, e o documentário boliviano "Uma Uñjirinaka Cuidadorxs del Água", que retrata comunidades indígenas mobilizadas contra a contaminação dos recursos hídricos.
Homenagem a Vicent Carelli - Um dos momentos mais simbólicos desta edição será a homenagem ao documentarista Vincent Carelli, que receberá o Troféu Pantanal pelo conjunto de sua obra. Criador do histórico projeto Vídeo nas Aldeias, iniciado em 1986, Carelli contribuiu para formar cineastas indígenas e incentivar a produção de mais de 70 filmes realizados pelas próprias comunidades. Para o cineasta, o grande avanço ocorreu quando os povos indígenas passaram a produzir suas próprias imagens.
"O mais interessante acontece quando eles mesmos fazem seus filmes. É um processo de fortalecimento interno das comunidades e também de transformação da forma como a sociedade conhece essas culturas." Segundo Carelli, o cinema indígena rompe estereótipos e oferece perspectivas mais profundas sobre a realidade dos povos originários. "O público percebe rapidamente que existe um outro olhar, outra forma de contar histórias. Isso aproxima o Brasil de um Brasil que muitas vezes desconhece."
Cinema sul-americano em evidência - Além de Vincent Carelli, o Bonito CineSur homenageará a atriz chilena Paulina García, vencedora do Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim por sua atuação em Gloria. Ela também integra o elenco de "Querido Trópico", longa escolhido para abrir oficialmente a programação do festival. Nesta quarta edição, o CineSur reúne produções da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela, consolidando Bonito como um importante espaço de circulação do cinema latino-americano.
Mais do que apresentar filmes, o festival reafirma sua vocação como ambiente de intercâmbio cultural, reflexão e valorização da diversidade de olhares que compõem a identidade do continente. Neste ano, essa pluralidade encontra nas narrativas indígenas uma de suas expressões mais potentes, revelando um cinema que preserva memórias, fortalece identidades e amplia o diálogo entre diferentes culturas sul-americanas.





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