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Artigo - Para além de Prosa e Segredo, em busca das origens de Campo Grande


PARA ALÉM DE PROSA E SEGREDO. EM BUSCA DAS ORIGENS DE CAMPO GRANDE


*** Ricardo Figueiró e Pe. Tiago Figueiró

Celebramos mais um aniversário da nossa querida Capital de Mato Grosso do Sul, Campo Grande: 124 anos de sua emancipação como Município. Talvez pareça óbvio. Mas, por que nossa cidade se chama Campo Grande? Quem segue a Afonso Pena em direção ao aeroporto, na altura do Clube Militar atravessa a rua Joaquim Ornellas. Alguém sabe o porquê desse nome? É sabido de todos o porquê de Santo Antônio ser padroeiro de Campo Grande e por que não se deu a ele o devido valor? E por que antigo bairro que margeia o córrego segredo, tem o nome Cabreúva? Talvez isso não tenha interesse, pois, a cada ano escutamos o mesmo clichê: aqui chegou um grupo de Minas, e pronto: começou Campo Grande! Por que vieram parar nessa região? Não seria interessante aprofundar um pouco mais a questão, sem desmerecer a todos os pioneiros que construíram esta bela cidade ao longo dos anos? Vejamos: o nome “Campo Grande”, ou “Campo Alto”, ou “Campos da Vacaria” era como foi sendo designada essa região geográfica: pelos bandeirantes que a percorreram a partir do final do século XVII, à caça de índios para o trabalho escravo, até a descoberta casual do ouro, em Cuiabá, em 1719. Ou por aqueles que utilizavam, já no final do século XVIII, a rota do comércio da Erva-Mate de Villa Concepción, do Paraguai e, subindo a Serra de Maracaju, seguiam margeando o Córrego Segredo, pela antiga estrada de Camapuã até Goiás. Esse “Grande Campo”, tornando-se conhecido, atraiu grupos de famílias, especialmente na primeira metade do século XIX, quer vindos por Sant’Ana do Paranaíba para a Vacaria, ou das proximidades de Cuiabá para a região de Miranda/Aquidauana; ou do sul do país, ao redor de Nioaque. No sul de Mato Grosso, desenvolveram-se, além da antiga Fazenda Camapuã (1727) e da Sesmaria do Rio Negro, sete grandes fazendas, algumas registradas em 1855, após a Lei da Terra de 1850. São elas: São João do Varadouro e Lajeado, vendidas em 1838, por João Nunes Brabo, de Sant’Anna do Paranaíba a Manoel José Ornellas, de Miranda. A Alinani; a Taboco, herança de Etelvina Alves Correia, esposa do Cel. Jejé (José Alves Ribeiro); a Fazenda Sant’Anna das Correntes, da família do Cel. Mascarenhas e a Várzea Alegre, de Joaquim Mota. A Fazenda Cabreúva possuía três grandes retiros: Guariroba, Ribeirão Piraputanga e Retiro Carandazal. Desmembrada da Varadouro e vendida, em 1855, a Joaquim de Souza Moreira, começa onde se encontra o atual Bairro Cabreúva. Talvez você já esteja pronto para perguntar: e a cidade de Campo Grande? _ não existia! Existiam em seu lugar as Fazendas Lajeado e Cabreúva que se organizavam. Mas, aconteceu a Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai, entre os anos de 1864-1870, que desestabilizou toda a primeira ocupação da fronteira do Centro-Oeste. Os fazendeiros mais afortunados levaram pelo menos 20 anos para retornar às suas terras, informava o Jornal A Província de Mato Grosso, em 1888. Ex-combatentes dessa guerra encarregaram-se de difundir a notícia desses grandes campos, buscados já em 1872. E foi o que aconteceu. A partir de 1875, grupos de famílias, vindas de Minas Gerais, estabeleceram-se na confluência dos córregos formadores do Anhanduí: o grupo de Manoel Veira de Souza (Manoel Olivério), de Prata, MG; o núcleo de José Antonio Pereira, de Monte Alegre, MG, vindos por Sant’Ana do Paranaíba, após muitas dificuldades com a saúde, fazem a promessa de construir uma capela em honra a Sto. Antônio. E por que acamparam nesse espaço? Porque, para eles, haviam chegado às “sonhadas terras devolutas” e não nas fazendas existentes: a Lajeado e a Cabreúva, ainda que, no início da organização do espaço e distribuição das posses, iam abastecer-se de carne em um Retiro abandonado, por causa da Guerra. Em 1878, com novos recém-chegados de Monte Alegre, foi celebrada a 1ª missa e casamentos entre as famílias citadas, e dá-se a inaugurada a capela do “Arraial de Santo Antônio” do campo grande. Nesse mesmo ano mais moradores de Monte Alegre, liderados por Vicente Ferreira da Silva, chamado “Caçador”, ocuparam áreas em terras pertencentes à Cabreúva e a denominaram de Fazenda Ceroula. Ainda em 1878, faleceu o dono da Cabreúva, Joaquim de Souza Moreira, sendo passada metade dela para a sua filha Eulália que se casou, nesse ano, com João Pereira Mendes Figueiró. Chegou, em 1879, Bernardo Franco Baís. Nesse período de reconstrução social, o arraial de Santo Antônio foi visitado, em 1886, pelo bispo de Cuiabá, D. Carlos Luiz D’Amour, cujo cronista observou que, nas questões ligadas à posse da terra, prevalecia a lei “do mais forte e do mais astuto, apesar das queixas ou denúncias que frequentemente subiam ao conhecimento da primeira autoridade da Província”. Dentro desse contexto, os proprietários da fazenda Lajeado, o Sr. Joaquim Silvério Ornellas e Leopoldina Maria Inocente, fizeram, em 16 de outubro de 1886, uma doação a Santo Antônio, do quadrilátero entre os córregos Prosa e Segredo, como o confirma o Registro de Imóveis da 1ª Circunscrição de Campo Grande. Você já havia escutado isso? Chegou a República e com ela a nova Lei de terras de 1892. José Antônio Pereira registrou o “Patrimônio de Santo Antônio” de Campo Grande, em Nioaque, em 20 de junho de 1894. Muitos conseguiram registrar suas terras e posses, até sem pagar o ônus devido, como a Taboco. Outros não o conseguiram, pelo fato de serem correligionários de Jango Mascarenhas, nos primórdios dos sonhos divisionistas do Estado, em disputa com o Cel. Jejé. Em 1894, Bernardo Franco Baís se nega a atestar a legalidade da Fazenda Cabreúva a pedido de João Pereira Mendes Figueiró, e lhe é negado o direito, justamente no ano de 1899, quando Campo Grande era emancipada como Município, e Bernardo Baís assumia como primeiro Juiz de Paz, tendo como auxiliares José Antônio Pereira e Vicente Francisco da Silva, Caçador. Coincidência, não?! Se o Império acrescentou à região a violência política, na República aflorou a violência explícita, “institucionalizada” e “costumeira”, tornando conhecida essa época como a “República dos coronéis” pois contava com a participação das milícias paramilitares dos coronéis e apoio dos bandidos. As questões eram resolvidas “nos confrontos armados, na destruição das propriedades dos adversários e no extermínio físico de líderes das facções opostas”. O calibre da arma utilizada ficou conhecido na expressão: “44, justiça do Mato Grosso”. Ao menos três “revoluções” em Mato Grosso, envolvendo o sul do estado: 1892, 1899 e 1906. As disputas giravam em torno aos interesses da Companhia Matte Laranjeira em manter seu monopólio. Estenderam-se até 1917 quando há a intervenção Federal em Cuiabá, e em 1918, em Campo Grande elevada, nesse ano, à condição de Cidade, quando assumiu o governo do Estado, como pacificador, o bispo Salesiano D. Francisco de Aquino Corrêa. Pela sua posição privilegiada e construção da Estrada de Ferro, Campo Grande tornou-se polo de desenvolvimento e sua organização inspirada no modelo francês: a rua 15 de novembro passou encima da antiga capela que foi destruída; Sto Antônio ficou sem terra, sem praça e sem rua. Capital, em 1979, Campo Grande, sem perder as suas raízes, é uma cidade aberta a novos sonhos.


Ricardo Figueiró e Pe. Tiago Figueiró – 18 de agosto de 2023 Cf. Cabreúva: de Segredo a Prosa e D. Aquino: Centenário da Excursão Presidencial – 1920/2020.


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