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Artigo - Myrian Fraga e a Rainha Vasthi, por Raquel Naveira

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto da professora, poeta e escritora de Campo Grande (MS), Raquel Naveira com seu artigo intitulado Myrian Fraga e a Rainha Vasthi


MYRIAN FRAGA E A RAINHA VASTHI

Raquel Naveira


Pesquiso em antigos arquivos a correspondência que recebi da poeta, jornalista e escritora, Myrian Fraga (1937-2016). Encontro, finalmente, com emoção, um belo cartão da Fundação Casa de Jorge Amado, da qual ela foi a primeira diretora, cargo que exerceu por trinta anos; mensagens de recebimento de livros e seu desejo expresso de que minha missão corajosa de semear poesia às novas gerações se cumprisse com sucesso. Observo as datas da década de noventa. Quantos anos se passaram até que eu tivesse a oportunidade de conhecer a Fundação Casa de Jorge Amado, um casarão histórico, no centro do impactante Pelourinho, em Salvador, com a tarefa de falar sobre Myrian. Ela que tão bem tratou das questões sociais do Nordeste; das representações da Bahia, pois “o mar sempre foi sua rota e naufrágio”. Ela que soube ressignificar figuras da mitologia construindo o feminino com força e delicadeza ao mesmo tempo.

Relembremos a amizade de Myrian com o casal Zélia Gattai e Jorge Amado. Um convívio feliz, de admiração mútua. Foi Jorge quem apresentou Myrian a Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Cassiano Ricardo. Jorge relatou em seu livro Navegação de Cabotagem que era leitor cativo de Myrian, que constatara através dos poemas de Os Deuses Lares, ilustrado por Calazans,” a densidade dramática, a sabedoria da palavra precisa e mágica” da guerreira Myrian Fraga. Era um reconhecimento do esforço dela na luta para levar avante a cultura, criando condições para a literatura e a arte na Bahia.

Da extensa e rica obra de Myrian, destacamos o seu último livro em vida: Rainha Vasthi. Myrian saiu do hospital, onde se tratava de leucemia, produzida e elegante, para o lançamento. Um livro concebido e burilado por vinte anos, publicado pelo A Roda Edições, companhia de teatro de bonecos. Apresenta uma peça de teatro em versos, uma fábula sobre o poder. Da passagem bíblica do Livro de Ester (19:9-24, 17), Myrian pinça um pequeno trecho, uma menção à rainha Vasthi, palavra que significa “mulher bonita”, em hebraico. Vasthi, a bela rainha que desafiou seu marido bêbado, o rei Ashuero ou Xerxes. Vasthi, a joia mais preciosa do império persa, a senhora do seu destino, a rainha das palavras degoladas. Myrian desenvolve seu poema dentro desse recorte. Conta que no terceiro ano do governo de Ashuero, após a derrota pelos gregos na batalha de Salamina, para sufocar a revolta, o rei deu uma festa que durou vários dias em Susa, a capital do império. O vinho corria livre. Ashuero, alterado, ordena que sete eunucos tragam a rainha para que todos vissem sua formosura. A rainha se recusa a dançar e se exibir perante aqueles olhares cúpidos. O rei se enche de fúria. O conselheiro diz que a rainha ofendeu ao rei e aos súditos. Que as mulheres todas poderiam seguir o seu exemplo. Vasthi é banida do reino.

A erudita Myrian Fraga concebe uma tragédia nos moldes do antigo teatro grego. Um núcleo de personagens com diferentes máscaras- o Corifeu, diretor dos coros; Vasthi; Ashuero; uma Figura (profeta/bufão); os sete magos; o coro dos sátrapas, governadores das províncias; o coro das concubinas; o coro dos escravos e a Escrava. Os cenários passam do geral, a sala do trono, para o harém, o serralho, o reduto das mulheres e para os aposentos da rainha, onde se dão as pelejas verbais, onde vêm à tona os desejos fugidios e a contagiante rebeldia de Vasthi que brada: “Sei dos muros- simetria, Sei das pulseiras- algemas, Sei das promessas- mentiras”, “Sou rainha ou sou escrava?” Vasthi nega-se assim a ser cúmplice de uma farsa, de um trono falido, de um reino podre. Flor despetalada, cumpre sua sina: “Para mim haverá o rumo certo, Os passos com que meço meu destino”. Ashuero se desespera: “Uma mulher que recuse obediência é um inimigo vivendo em nossa casa, um traidor comendo em nossa mesa, uma serpente dormindo em nossa cama.” O epílogo, na voz do coro das concubinas, é sublime: “Um pássaro noturno bate as asas e estraçalha com o bico e com as garras os olhos espantados das estátuas.”

O texto foi ilustrado por Olga Gómez. São desenhos eróticos a carvão, fortes e estranhos, que reproduzem leões, elefantes, carruagens, mulheres com seios nus, braceletes e homens angustiados, lançando luzes estranhas sobre a história de Vasthi, “a gazela encantada, coroada de estrelas, perfumada de jasmins e alfazemas.”

Quanta voltagem lírica, quanta lucidez lancinante nessa peça encenada a cada verso em nossa imaginação. Com a Rainha Vasthi, Myrian Fraga desperta séculos de esfinges que dormem no sangue de todas as mulheres.


Salvador, Bahia, 06 de novembro de 2022, Feira Literária do Pelourinho (FLIPELÔ).

Agradecimentos especiais ao poeta José Inácio Vieria de Melo; à diretora executiva da Fundação Casa de Jorge Amado, Ângela Fraga e aos companheiros de mesa, os professores e escritores, Ricardo Vieira Lima e Ricardo Nonato.

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