• Alex Fraga

Artigo - Fin de siécle artístico e alguns caminhos da música atual


*** Vinicius Hipólito - - -


A morte de Morais Moreira (72) encorajou-me a escrever este texto. Factualmente, há muito reflito a respeito do período musical que vivemos - mais especificamente aquilo que chamarei aqui de “fin de siécle artístico”. Uma geração inteira de artistas, nacionais e internacionais nos permitirá apreciar nos próximos anos talvez algumas de suas últimas grandes turnês e de suas novas criações.


McCarteny, Gal Gosta, Gilberto Gil, Eric Clapton, Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo, Ivan Lins, Vitor Martins, George Benson, Herbie Hancock, Milton Nascimento, Pepeu Gomes, Baby do Brasil, Rita Lee, Elton John, Bob Dylan, Brian May, Roger Meddows, John Deacon, Maria Bethânia, Erasmo e Roberto, Tom Zé, Djavan, Ney Matogrosso, Elba Ramalho, Ben Jor, Elza Soares, Lulu Santos, Rita Lee, Ron Carter e Chico Korea são alguns dos artistas representativos desse movimento de fin de siécle. As suas obras estão pelo mundo, no imaginário dos homens mais simples aos daqueles altamente especializados nas artes musicais. Para muitos, além disso, esses artistas contribuíram para a nossa própria percepção como seres humanos, de como concebemos o mundo e da nossa própria história de vida.


De saída cabe dizer que este texto não é um escrito triste ou amargurado. Trata mais de um escrito retrospectivo, analítico e que tenta expor o atual presente vivido. Levo em consideração a força invencível do tempo sobre nós humanos e, por outro lado, o aplacamento de seu poder pelo valor ad aeternum das obras desses grandes artistas. Se fôssemos falar de uma única influência artística mundial possivelmente nos saltaria rapidamente à mente um nome: Beatles. A banda obteve um excepcional sucesso de público no mundo, ainda nos de 1970, mas também conseguiu a admiração de exigentes de nomes da música como Gil, Milton Nascimento e seu clube, Brian May, Djavan e Rita Lee que chegou a gravar um disco (Aqui, ali, em qualquer lugar – 2001) apenas composições dos garotos de Liverpool. Entretanto, sabemos que esses ícones, que admitem tal influência, gênios que também são, utilizaram dessa fonte para forjar a sua própria identidade e produzir obras de altíssimo nível: Drão (Gilberto Gil), Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant), Hammer to Fall (Brian May), A ilha (Djavan) e Ovelha Negra (Rita Lee).


Elton John não é só um admirador da obra dos Beatles, mas também um amigo bastante próximo dos garotos de Liverpool, especialmente de John Lennon. Recentemente a carreira de Elton foi retratada de maneira bastante especial no filme Rocket Man (2020). O cantor e pianista emplacou uma séria de sucessos como Your Song, My Sacrifice e Tiny Dancer – todas compostas por Elton e Bernie Taupin. Em 2018, o músico anunciou que faria sua última turnê, Farewell Yellow Brick Road Tour, que viria a durar por três anos, encerrando em 2021. De outro modo, existem aqueles artistas que passaram de modo mais sereno pelo furacão Beatles, como é o caso de Caetano Veloso. No ano de 1978, Caetano Veloso lançou a canção que seria o símbolo de São Paulo: Sampa. O poema é um relato emblemático da cidade, sob o olhar de um jovem ainda recém-chegado naquela estranha terra. Caetano, que se tornou verbo, protagonizou ao lado de Chico Buarque o especial Chico e Caetano nos anos de 1980.


O trabalho artístico de Chico Buarque extrapola o universo musical e por esse motivo ele foi homenageado com o Prêmio Camões em 2019. Podemos dizer que a música de Chico nos proporciona viagens a lugares e situações raramente testemunhadas. Com a canção Pedaço de Mim, por exemplo, Chico nos toma de assalto para uma dessas viagens e nos leva à situação limite de uma mãe que arruma o quarto falecido. Chico Buarque trabalhou ao lado de vários parceiros, especialmente de Edu Lobo. E foi com essa parceria que surgiu “Beatriz”, uma homenagem sublime ao amor que faz parte da trilha musical do espetáculo musical O grande circo místico (1983). Entre outras parcerias mais recentes Chico Buarque se juntou a João Bosco e nos presenteou com a canção Sinhá, gravada no disco Chico (2011).


Apesar da grande intimidade alcançada com Chico, foi, sem dúvida, com Aldir Blanc que João Bosco atingiu seus voos mais altos. A canção O Bêbado e a Equilibrista que reverenciou Carlitos, personagem de Charles Chaplin, composta pela dupla foi imortalizada pela Elis Regina, que completaria 75 anos em 17 de março. A gravação contou com o arranjo de César Camargo Mariano e acompanhamento dos músicos Paulinho Braga (bateria); Luizão (baixo); Ary Piassorollo (guitarra); Hélio Delmiro (violão); Cidinho (tamborim) e Chiquinho (acordeon).


Elis, que não compunha, lançou vários compositores de sua geração, entre eles Ivan Lins. Com Vitor Martins Ivan estabeleceu provavelmente a sua maior parceria musical. A obra dos mestres é inaugurada, “humildemente”, com a canção “Abre Alas”, gravada em 1974 no disco Modo Livre. Falar da obra de em Ivan Lins e Vitor Martins nos leva rapidamente a outros ícones da música mundial: George Benson e Quincy Jones. Assim que conheceram o trabalho de Ivan Lins e seu parceiro, ainda nos de 1970, os dois artistas, Quincy e Benson, manifestaram uma grande admiração pelas canções dos brasileiros. Segundo Benson, Ivan Lins foi a sua grande inspiração para a gravação de seu álbum Give me the night (1980). Neste disco estão alguns dos grandes sucessos de George Benson como Love X Love, a própria canção que dá nome ao disco e Dinorah, Dironah canção de Ivan Lins e Vitor Martins.


Outro Jorge, cujo sobrenome é Ben Jor, que foi assinalado desta maneira para evitar confusões com relação aos direitos com seu xará americano, nos mostrou ainda nos anos de 1970 um balanço diferente ao violão e na voz, carregado de brasilidade e expressão em canções como País Tropical e Mas que nada. Por falar em balanço, logo vem à memória um outro balanço bastante distinto, inaugurado no disco Acabou o Chorare (1972) pelos novíssimos Baianos. Abençoados por João Gilberto (1931-2019), os Novos Baianos deixaram as suas digitais na formação da música popular brasileira, sincretizando influências múltiplas originárias das vivências pessoais e artísticas dos integrantes. Uma das estrelas que ascende deste grupo é Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade, mais conhecida como Baby do Brasil. Ainda muito jovem a cantora demonstrou originalidade em suas interpretações. Aliás, quando falamos em cantores intérpretes em nosso país não é justificável deixar de citar Maria Bethânia, Ney Matogrosso e Gal Gosta, cantores cuja discografia demonstra raro ecletismo e personalidade. Gal Gosta, por exemplo é consagrada como uma das mais importantes intérpretes da bossa-nova, todavia se joga no mundo do rock entoando canções como Dê um Role de Moraes Moreira e Luiz Galvão, regravada DVD ao vivo - A pele do futuro (2018).


A diversidade de Ney Matogrosso, de outro modo, pode ser expressa no contraste entre o sucesso da gravação Homem com H de Antônio Barros que o lançou nos braços do público brasileiro e no trabalho quase que concertista ao lado de gênio do violão Raphael Rabello (1962 - 1995). Já Maria Bethânia, por sua vez, criou um universo singular que amálgama a emissão vocal do canto, a declamação e a fala que dificilmente será alcançado. Em 2019 a artista foi a grande homenageada do 26º Prêmio da Música Brasileira.


Retornando ao grupo dos Novos Baianos, cabe nota o trabalho renovador no cenário artístico brasileiro de Pepeu Gomes. O cantor e guitarrista uniram-se seus solos de guitarra elétrica ao samba e ajudou a consolidar um caminho importante aos cantores-guitarristas de nosso país. A personalidade artística de Pepeu é composta de diversas influências, entre elas a de um artista de carreira internacional que passou dos 75 anos em março deste ano – Eric Clapton. O inglês Eric Clapton proporcionou a todos nós um retorno à obra de Robert Johnson, pai do Blues. Clapton passeou com o rei B.B. King (1927-2015) por toda a sua carreira e um dos pontos altos desse grande rolê foi a gravação do disco Riding With The King (2000). Além da parceria com o B.B. King, Clapton gravou a canção Higher Ground de Stevie Wonder, músico que completou 70 anos no dia 13 maio. A gravação de Clapton fez parte do disco Conception – An interpretation of Stevie Wonder’s songs (2003). O disco conta ainda com outros clássicos de Stevie Wonder como Superstition, interpretada Glenn Lewis e Overjoyed cantada por Mary J. Blige.


Olhar para este cenário que nomeei fin de siécle e para a plêiade de artistas citados no decorrer deste texto, que irão nos presentear com suas últimas turnês nos próximos anos, factualmente no caso de Elton John, por exemplo, e provavelmente de Eric Clapton que há algum tempo auto-pressagia sua saída dos palcos, pode gerar em nós uma sensação de melancolia e desamparo. Entretanto, penso que a próxima geração de artistas, músicos e compositores têm muitíssimo a nos oferecer.

Penso que talvez a análise da imensa riqueza artística apresentada nesse texto só foi possível pelo processo longo de consolidação da carreira desses ícones. Ao olhar para o cenário da música atualmente nos deparamos também com artistas de grande valor como, por exemplo, Jorge Drexler, que investe sua energia no estudo cuidadoso da poesia e da abstração. Destaco também a obra do pernambucano Lenine com as suas peculiaridades rítmicas ao violão e ainda a guitarra empolgante de John Mayer que nos levam por caminhos bastante encantadores. Outros nomes como Monica Salmaso, Roberta Sá e Marisa Monte também se mostram como talentos que muito iluminam a nossa estrada do presente e futuro.

****Vinicius Hipólito é músico, professor de violão e mestre em Musicologia pela UFG (Universidade Federal de Goiás

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