Artigo - Como Ensinou o Barão de Itararé..., por Paulo M. Esselin
- Alex Fraga

- há 12 horas
- 4 min de leitura

Terça-feira no Blog do Alex Fraga é dia de artigo com o professor titular aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Paulo M. Esselin, com "Como ensino o Barão de Itararé.
Como Ensinou o Barão de Itararé...
***Paulo M. Esselin
Ao longo dos tempos, a política em Mato Grosso do Sul tem revelado uma renovação muito limitada de seus quadros. Os novos nomes que surgem, em geral, pertencem à oligarquia rural dominante ou a grupos que não rompem com as orientações políticas que predominam no Estado desde muito.
Atualmente quando se observa o percurso recente da aliança entre Eduardo Riedel, Teresa Cristina e Adriane Lopes, percebe-se que muitos projetos mudaram de embalagem, trocaram de partido ou ganharam novos discursos, mas permaneceram essencialmente iguais em sua lógica de poder.
A aproximação que se consolidou no segundo turno da eleição municipal de 2024 não nasceu apenas como apoio eleitoral. Ela expressava uma estratégia mais ampla: alinhar a Prefeitura de Campo Grande ao Governo do Estado, preservar lideranças influentes e organizar um campo político com capacidade de atravessar eleições sucessivas. O encontro entre Riedel e Teresa Cristina, no Parque dos Poderes, simbolizou essa tentativa de continuidade.
Na ocasião, o governador declarou à imprensa: “Quero aqui declarar o meu voto e o meu apoio à Adriane nesse segundo turno. Por entender que ela será a melhor [opção] para Campo Grande, que reúne as condições de poder avançar em uma transformação que a gente quer ver. A gente vai votar e apoiar a Adriane para que a gente busque esse caminho para a capital, que ajuda muito o Estado de Mato Grosso do Sul no caminho que a gente está desenhando”. Essas palavras de Riedel é um claro anúncio de sua preocupação com a continuidade de um modelo conhecido: acordos entre grupos dominantes e promessa de “eficiência administrativa” como justificativa para manter o bloco no comando. Por outro lado, a senadora Teresa Cristina reforçou essa leitura ao afirmar: “Fico muito feliz com a declaração do voto [do governador Riedel] e apoio à Adriane. Estamos juntos, nunca estivemos separados, e embora tenhamos sido adversários nesse primeiro turno, agora esse é o caminho natural. Fico muito feliz pela coerência que nós dois temos na política”. A frase da senadora, “nunca estivemos separados”, talvez seja a síntese mais reveladora desse processo. Ela mostra que as disputas eleitorais, muitas vezes apresentada ao eleitor como confrontos de projetos, podem, sim, esconder convergências antigas. Porém, a adversidade do primeiro turno foi circunstancial; a unidade de interesses, ao contrário, permaneceu em pé.
Adriane Lopes, por sua vez, agradeceu o apoio do governador e afirmou que “iniciamos, nos últimos dois anos, o melhor projeto para a nossa cidade”. A declaração buscava dar à sua gestão a imagem de “continuidade positiva”, como se apenas a permanência no poder fosse condição para completar uma obra administrativa em andamento.
Após a vitória de Adriane Lopes, o governador Riedel, em agosto de 2025, se filia ao PP- Partido Progressista, (que de progressista não tem nada), o mesmo da senadora Teresa Cristina e da prefeita, completando um trio aliançado para utilizar, em uníssona voz, o discurso de “eficiência administrativa” para consolidar o domínio político no Estado e na Capital.
Ficou escancarado para a população que o modus operandi de ambos os chefes do executivo (estadual e municipal) é bastante similar: Riedel e Adriana possuem alinhados propósitos de viabilizarem, conjuntamente, vultosos recursos para serem aplicados em investimentos de infraestrutura e mobilidade urbana e em outras importantes áreas. Porém, na prática, a população sul-mato-grossense, (incluindo-se, evidentemente, a população desta Capital Morena) continua convivendo com os mesmos problemas antigos, especialmente os relacionados à Estrutura Urbana, à Saúde e à Educação, assistindo diária e desoladamente, à incapacidade de ambos responderem às demandas básicas da população. Campo Grande segue expondo, a céu aberto, as chagas das ruas esburacadas, sua falta de manutenção (quando é minimamente feita, o recapeamento é insuficiente e/ou de má qualidade); as obras não acompanham a urgência dos bairros; as condições do transporte público são calamitosas... Mas, o que não deixa de acontecer, é o aumento de impostos.
No plano estadual, as rodovias e trechos estratégicos revelam a mesma contradição: o governo não consegue garantir condições adequadas de circulação, segurança e escoamento da produção. O único segmento que vem prosperando nesse período são as borracharias, que veem aumentadas suas jornadas de trabalho e, consequentemente, seus ganhos, por razões óbvias.
Na Saúde, não é diferente: secretários são mudados, discursos são mudados, e surgem novas propostas de gestão; no entanto , o cenário continua o mesmo: longas filas de espera; crianças, jovens e adultos aguardando cirurgias ou atendimento especializado; faltam profissionais da saúde , médicos e enfermeiros; persiste a escassez de medicamentos e os postos de saúde e hospitais estão sempre sobrecarregados, resultando num deprimente quadro de dantesca visão: pacientes atendidos em corredores de hospitais; os acompanhantes dos enfermos, se quiserem se sentar, têm que trazer cadeiras de casa... e tudo isso ocorre sob intenso calor e ausência de climatização adequada.
Na Educação, o tratamento dado aos professores é o mesmo, embora recorrentemente- e sobretudo em campanhas publicitárias- ela seja apontada como prioridade. A realidade é outra: há desvalorização da carreira, há sobrecarga de trabalho e cresce a violência e indisciplina nas escolas; faltam recursos pedagógicos e as aulas são ministradas como se estivéssemos nos anos sessenta do século passado. As salas de aulas estão superlotadas, e os reajustes salarias, quando pagos, sequer cobrem a inflação.
A solução para esses graves problemas é a mesma apresentada pelo governador e prefeita: a terceirização ou privatização das unidades da saúde e da educação, apresentando como novo um projeto que revela uma solução velha: transferir a responsabilidade com saúde e educação para a iniciativa privada livrando o poder estatal das suas responsabilidades constitucionais.
Talvez a única diferença entre eles seja que a prefeita, diante da grave situação da cidade, promoveu a nomeação de doze pastores para ocupar cargos estratégicos na administração dela. Quem sabe, com eles e com os caminhos que possam construir, possamos ter uma ajuda do Criador e a cidade possa voltar aos velhos tempos. Mas como já dizia sabiamente o Barão de Itararé: “de onde menos se espera é que não sai nada,” o jeito é vivenciar, com intensidade, o clássico lembrete; O preço da liberdade é a eterna vigilância.
***Prof. Titular aposentado da UFMS





Comentários