Artigo - A desistência de Nelsinho e o tabuleiro politico de MS, por Paulo Esselin
- Alex Fraga

- há 19 horas
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Domingo no Blog do Alex Fraga é dia de artigo com o professor titular aposentado da UFMS, Paulo M Esselin, com "A desistência de Nelsinho e o tabuleiro político de MS"
A desistência de Nelsinho e o tabuleiro político de Mato Grosso do Sul
***Por Paulo M. Esselin
O que passa na cabeça dos nossos dirigentes? Talvez a certeza perigosa de que Mato Grosso do Sul já está politicamente resolvido. Como se o eleitor fosse apenas detalhe, como se 2026 e 2030 já estivessem decididos em uma mesa de negociação, antes mesmo de o povo ser chamado a votar.
Riedel, Reinaldo e Nelsinho podem até fazer suas contas, construir alianças e planejar o futuro. Isso faz parte da política e é legítimo. O problema começa quando essas articulações passam a impressão de que os cargos públicos pertencem a grupos, e não à população. Governador, senador, suplente: tudo parece distribuído como se fosse patrimônio particular.
A pergunta que fica é simples: será que nossos dirigentes ainda enxergam o eleitor como protagonista ou apenas como alguém chamado de tempos em tempos para confirmar decisões tomadas nos bastidores?
E mais: o que esse pessoal pensa do povo? Pensam que a população não percebe as combinações, os encaixes e os acordos feitos antes da eleição? Pensam que o eleitor serve apenas para carimbar, com o voto, decisões tomadas longe dos olhos da sociedade? Esse tipo de articulação pode até ser legal dentro das regras do jogo, mas revela algo mais grave: o desprezo pelo povo. Como se a população não tivesse memória, não acompanhasse os movimentos de bastidor e não fosse capaz de perceber quando o poder é tratado como propriedade privada.
Há nesse comportamento um ranço de cultura escravocrata: a ideia de que poucos mandam, muitos obedecem, e o povo só é chamado quando precisa legitimar, pelo voto, decisões já tomadas pelos donos do poder.
E nesse cenário, qual é o papel da oposição? A oposição existe justamente para impedir que a política vire um acordo fechado entre os mesmos grupos de sempre. Cabe a ela fiscalizar, questionar, apresentar alternativas e lembrar ao eleitor que nenhuma eleição está decidida antes do voto.
Se a oposição se calar, se acomodar ou apenas assistir ao jogo de camarote, contribuirá para a sensação de que Mato Grosso do Sul já tem donos. A oposição precisa sair da reclamação e oferecer projeto, mostrar ao povo que há outro caminho e que o Estado não precisa ser governado por rodízio de poder nem por combinações feitas nos bastidores.
Mato Grosso do Sul não pode ser tratado como tabuleiro de xadrez de meia dúzia de lideranças. Nenhuma eleição está ganha antes da apuração dos votos.
Nenhum mandato deve ser negociado como herança. E nenhum projeto político pode se colocar acima da vontade popular.
No fim das contas, a grande questão é saber se Mato Grosso do Sul aceitará esse roteiro pronto ou se o eleitor ainda terá força para desmontar, na urna, essa engenharia política montada nos gabinetes.
A desistência de Nelsinho Trad escancarou uma lógica antiga: enquanto alguns disputam voto, outros disputam tempo, espaço e sobrevivência política. Reinaldo Azambuja, Eduardo Riedel e Nelsinho Trad parecem não estar apenas organizando 2026; parecem desenhar também o caminho para 2030.
É a política do revezamento: um governa, outro ocupa o Senado, o terceiro segura a suplência e, no momento certo, todos permanecem no jogo. Ninguém perde espaço; apenas muda de cadeira.
Mas política não pode ser tratada como herança, nem mandato como propriedade privada. O poder pertence ao povo, e é o povo quem deve decidir, na urna, se aceita esse arranjo ou se quer abrir um novo caminho para Mato Grosso do Sul. Afinal, em democracia, por mais que os dirigentes façam suas contas, a última palavra ainda é do eleitor.
***Professor titular aposentado da UFMS





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