Arte - Teatro de rua atravessa o Brasil e chega a Mato Grosso do Sul


Circuito que reúne grupos de Roraima e Mato Grosso do Sul transforma ruas e espaços públicos em territórios de encontro, memória e criação
Em um país acostumado a concentrar sua produção cultural nos grandes centros, fazer teatro atravessar fronteiras ainda é, por si só, um ato político. Não apenas porque artistas precisam percorrer centenas ou milhares de quilômetros para encontrar novos públicos, mas porque cada deslocamento coloca em contato diferentes sotaques, memórias, tradições e maneiras de compreender o Brasil.
É nesse território que se insere o Circuito Nacional Teatral Aproximando Fronteiras, que traz a Mato Grosso do Sul o Grupo Locômbia Teatro de Andanças, de Roraima, com o espetáculo “Cavaleiro Perfumado”. A programação passa por Dourados, Ponta Porã e Campo Grande, sempre com entrada gratuita, e estabelece ainda um intercâmbio com grupos sul-mato-grossenses.
Mais do que uma temporada itinerante, o circuito recupera uma dimensão fundamental das artes cênicas: a capacidade de fazer do encontro entre artista e espectador a própria razão de existir do espetáculo. Quando a cena abandona o edifício teatral e ocupa uma praça, uma feira ou um parque, ela deixa de depender de um público previamente formado e passa a disputar a atenção da cidade.
A rua como palco e território - É justamente essa relação direta que caracteriza o trabalho do Locômbia, grupo que completa 40 anos de trajetória. Sua pesquisa combina teatro gestual, mímica, dança, pernas de pau, máscaras e música ao vivo, aproximando a cena das manifestações populares e de uma tradição teatral que não estabelece uma separação rígida entre palco e plateia. Em “Cavaleiro Perfumado”, um personagem errante percorre o sertão em direção ao Norte em busca de fortuna e amor. A narrativa mistura aventura, comicidade e elementos da cultura popular para acompanhar sua trajetória até o encontro com Rosinha e a formação de uma nova família em terras amazônicas.
A história, entretanto, interessa também pela maneira como é contada. O espetáculo utiliza recursos próprios do teatro de rua para criar uma comunicação imediata com o espectador. Pernas de pau, mímica, humor, música e interação transformam a narrativa em experiência coletiva, recuperando uma teatralidade que nasceu muito antes das salas convencionais. Há, nesse tipo de criação, uma compreensão de que cultura não precisa pedir licença para acontecer. Ela pode estar na rua, no meio da feira, diante de uma praça ou em qualquer espaço onde exista gente disposta a olhar.
A presença de um grupo de Roraima em Mato Grosso do Sul também revela uma dimensão importante do projeto: a circulação horizontal da produção brasileira. Em vez de estabelecer uma relação em que apenas os grandes centros exportam cultura para o restante do país, a proposta coloca em contato artistas de regiões que frequentemente permanecem distantes dos circuitos nacionais de maior visibilidade.
O Prêmio de Circulação Funarte Myriam Muniz 2025, que selecionou 16 projetos em todo o país, permite justamente que essas distâncias sejam enfrentadas. O circuito contempla ações no Amapá e em Mato Grosso do Sul e transforma a circulação em instrumento de intercâmbio artístico. No Estado, essa troca envolve o Teatro Imaginário Maracangalha e a Cia. de Brincantes. São experiências distintas, mas que compartilham a opção pelo diálogo com a cultura popular e pela aproximação direta com o público.
O Maracangalha apresenta “Tragicomédia de Dom Cristóvão e Sinhá Rosinha”, montagem que utiliza humor, música, elementos circenses e personagens caricatos para discutir amor, liberdade e autonomia. Já a Cia. de Brincantes leva ao público “Andança Brincante”, espetáculo construído a partir de cantigas, cortejos e brincadeiras tradicionais.
No trabalho da Cia. de Brincantes, o teatro se aproxima particularmente da memória. Amarelinha, pular corda, Escravos de Jó e Fui no Itororó não aparecem apenas como lembranças de infância, mas como manifestações de uma cultura transmitida entre gerações. Essa dimensão é importante em um momento em que muitas dessas práticas tradicionais perdem espaço diante de novas formas de entretenimento. Recuperá-las no espaço público significa reconhecer que o patrimônio cultural também vive em gestos aparentemente simples: uma cantiga, uma roda, uma brincadeira ou uma história contada de geração em geração. O teatro, nesse caso, não funciona apenas como espetáculo. Funciona como mecanismo de memória.
Fronteira - O próprio nome do circuito sugere uma mudança de perspectiva. Fronteira costuma ser compreendida como aquilo que separa. O projeto trabalha com a ideia contrária: a fronteira pode ser justamente o lugar onde culturas se encontram.
Em Mato Grosso do Sul, essa discussão ganha uma dimensão particular. Estado marcado por diferentes fluxos migratórios, pela presença de comunidades indígenas, pela proximidade com Paraguai e Bolívia e por uma produção cultural construída a partir de múltiplas influências, o território sul-mato-grossense conhece bem a experiência de viver entre culturas.
Levar teatro para esses espaços, portanto, é também reconhecer que a produção cultural brasileira não cabe em um único sotaque, estética ou centro de referência.
A programação do Circuito Nacional Teatral Aproximando Fronteiras coloca Roraima e Mato Grosso do Sul em diálogo por meio da cena. E talvez esteja aí sua principal força: não tratar a circulação apenas como deslocamento de espetáculos, mas como oportunidade de encontro entre artistas e comunidades.
Porque, quando o teatro ocupa a rua, a fronteira deixa de ser uma linha no mapa. Torna-se passagem. (Com informações da Ass. Imprensa)
SERVIÇO
Dourados
9 de outubro, às 19h – Espaço Cultural Circo das Artes – Céu de Lona“Tragicomédia de Dom Cristóvão e Sinhá Rosinha”
10 de outubro, às 19h – Espaço Cultural Circo das Artes – Céu de Lona“Cavaleiro Perfumado”
Ponta Porã
12 de outubro, às 19h – Parque dos Ervais“Cavaleiro Perfumado”
Campo Grande
17 de outubro, às 19h – Feira Central“Cavaleiro Perfumado”
18 de outubro, às 10h – Feira da Praça Bosque da Paz “Andança Brincante”
Todas as apresentações são gratuitas.





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